Yanar Mohammed
| Yanar Mohammed | |
|---|---|
Yanar numa coletiva em Berlim, 2013 | |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Nacionalidade | iraquiana |
| Principais trabalhos | Diretora da Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque |
Yanar Mohammed (em árabe: ينار محمد; Bagdá, 1960 – Bagdá, 2 de março de 2026) foi uma feminista e ativista iraquiana. Foi cofundadora e diretora da Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque e editora do jornal Al-Mousawat ("Igualdade"). Ela fundou os primeiros abrigos para mulheres no Iraque em 2003, protegendo-as de “crimes de honra” e tráfico sexual, uma rede que se expandiu para 11 casas em 5 cidades até 2018. Seus abrigos salvaram centenas de mulheres vulneráveis ao longo de 16 anos.
Biografia
[editar | editar código]Mohammed nasceu em Bagdá, capital do Iraque. Ela foi criada e viveu na cidade dentro de uma família liberal onde sua mãe era professora e seu pai era engenheiro. Seu avô por parte de mãe era religioso e um homem notável em sua comunidade que "definitivamente merecia o título honorário de mulá", exceto que ele se casou com a irmã mais nova de quatorze anos de sua ex-esposa, o que primeiro estimulou Mohammed a assumir defender a causa dos direitos das mulheres.[1]
Mohammed se formou na Universidade de Bagdá em Arquitetura com bacharelado em 1984,[2] e mestrado em 1993. Após estudos de pós-graduação e viagens ao Canadá, ela foi ativa no Partido Comunista dos Trabalhadores no Iraque, que deixou no final de 2018.[3]
Em 1995, sua família se mudou do Iraque para o Canadá.[1] Em 1998, Mohammed fundou a organização chamada Defesa dos Direitos da Mulher Iraquiana. Posteriormente, em 2003, se tornou a Organização para a Liberdade da Mulher no Iraque.
Após a invasão do Iraque liderada pelos Estados Unidos em 2003, Mohammed retornou a Bagdá, um retorno que ela financiou por uma vida inteira de economias e trabalho em Arquitetura.[4] Após seu retorno ao Iraque, Mohammed fundou um grupo para promover os direitos das mulheres no Iraque pós-Saddam, a Organização da Liberdade das Mulheres no Iraque, depois de ter fundado um grupo de mulheres anteriormente no Canadá sob o nome de Defesa dos Direitos das Mulheres Iraquianas. Ela também editou o boletim feminista Al-Mousawat.[5]
Em 2003, Mohammed criou a Organização da Liberdade das Mulheres no Iraque, um grupo ativo no apoio aos direitos das mulheres no pós-invasão liderada pelos Estados Unidos desde aquele ano. A organização criou abrigos para mulheres e casas seguras para proteger as mulheres ameaçadas de abuso doméstico e os chamados crimes de honra, liderou atividades contínuas contra o tráfico de mulheres jovens, deu aulas para ensinar mulheres ativistas a enfrentar a intolerância, defendeu a igualdade para as mulheres em rádio e televisão iraquianos. Mohammed também entrevistou e auxiliou cerca de 30 mulheres detidas. Após essas entrevistas, uma pessoa foi salva de uma sentença de morte, enquanto muitas outras foram salvas de reentrar nos círculos de tráfico sexual.[6] O trabalho de Mohammed na Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque criou uma rede de abrigos para mulheres em 5 cidades ao redor do Iraque, onde mais de 870 mulheres recuperaram seu bem-estar e dignidade ao longo de 16 anos (2003-2019). Durante seu trabalho neste grupo, Mohammed recebeu o Prêmio dos Direitos da Mulher da Fundação Gruber em 2008[7] e o Prêmio Rafto da Noruega em 2016.[8] Em 2018, ela foi listada como uma das 100 mulheres da BBC.[9] Enquanto isso, Mohammed estudou na Universidade de Toronto no Instituto de Estudos em Educação de Ontário e escreveu uma tese de mestrado sob o título "Teorizando a luta feminista no Iraque pós-guerra 2003-2018".
Ideologia política
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Mohammed fez campanha pelos direitos das mulheres, a favor do secularismo e da democracia. Ela era integrante da Organização Comunista Alternativa no Iraque.[10]
Mohammed era fortemente oposta à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, afirmando que a "ocupação dos EUA transformou as ruas do Iraque em uma zona de não-mulheres",[11] e "a ocupação americana que está disposta a cometer genocídio, ou [...] Islã político, que nos fará viver de uma forma completamente desumana e não liberada", preferindo assim uma terceira via para construir a liberdade no Iraque.[12] Falando numa entrevista em 2007, disse "as tropas americanas precisam se retirar imediatamente, incondicionalmente."[13] Mohammed acreditava que a ocupação do Iraque pelos EUA alimentou a insurgência e a violência predominantes no Iraque pós-2003, causando efeitos prejudiciais sobre os direitos das mulheres.[14]
Yanar Mohammed, embora não fosse anti-religião, acreditava fortemente no governo secular, argumentando que a igualdade das mulheres só pode ser alcançada através do governo secular porque um governo islâmico prejudicaria os direitos e a liberdade das mulheres.[15] Em 2003, destacou o contraste entre o tratamento de suas avós na metade do século XX e a experiência cotidiana retrógrada das mulheres no Iraque contemporâneo.[1]
Como resultado de seu trabalho sobre os direitos das mulheres que questiona as interpretações extremas do Islã, Mohammed recebeu ameaças de morte e foi forçada a restringir seus movimentos. Jaish al Sahaba, parte do grupo islâmico iraquiano Comando Supremo para a Jihad e Libertação, enviou duas ameaças de morte a Mohammed em 2004, diretamente relacionadas aos seus esforços para alcançar a igualdade de gênero na sociedade iraquiana.[16]
Morte
[editar | editar código]Na manhã de 2 de março de 2026, Mohammed foi baleada por dois homens armados não identificados perto de sua casa no norte de Bagdá. Ela foi levada para um hospital, mas morreu devido aos ferimentos pouco tempo depois. O atentado contra Mohammed ocorreu poucos dias após seu retorno do Canadá, o que levantou suspeitas de um assassinato premeditado.[17]
O Ministério do Interior do Iraque formou uma equipe investigativa para analizar o assassinato.[18] Muitos ativistas iraquianos e curdos pediram uma investigação completa a respeito da morte de Mohammed.
Prêmios e honrarias
[editar | editar código]- Prêmio Gruber 2008 para os Direitos da Mulher[19]
- Prêmio Rafto de 2016[20]
- É uma das 100 Mulheres da lista da BBC de 2018.[21]
Ela também é retratada no documentário I am the Revolution, de Benedetta Argentieri.[22]
Referências
- 1 2 3 Yanar Mohammed (30 de dezembro de 2003). «Letters home: Iraq». Bbc.co.uk (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ The Curious Feminist: Searching for Women in a New Age of Empire (em inglês). Londres, 2004, p.302
- ↑ The Curious Feminist: Searching for Women in a New Age of Empire (em inglês). London, 2004. p.301
- ↑ The Curious Feminist: Searching for Women in a New Age of Empire (em inglês). Londres, 2004, p.203
- ↑ Al-Mousawat a descreveu como "uma plataforma de feminismo destemido contra o fundamentalismo islâmico e tendências patriarcais tribais, e destaca entre outras violações atrocidades contra mulheres resultantes da guerra" numa entrevista com Mohammed publicada na Association for Women's Rights in Development (2006)
- ↑ «Fighting for women's rights in Iraq - CNN.com». www.cnn.com (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «2008 Gruber Women's Rights Prize Press Release». Gruber.yale.edu (em inglês). 8 de julho de 2008. Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «Defender of women's rights in war-torn Iraq». The Rafto Foundation (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «BBC 100 Women 2018: Who is on the list?». BBC News (em inglês). 19 de novembro de 2018. Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «Prominent feminist activist Yanar Mohammed shot dead in Iraq». Middle East Eye (em inglês). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ Ferguson and Marso (eds.),'W Stands for Women: How the George W. Bush Presidency Shaped a New Politics of Gender' (em inglês). Cambridge, 2007. p.228
- ↑ Ferguson and Marso (eds.),'W Stands for Women: How the George W. Bush Presidency Shaped a New Politics of Gender' (em inglês). Cambridge, 2007. p.233
- ↑ «Feminists Yanar Mohammed of Iraq and Dr. Sima Samar of Afghanistan on the Dire Situation for Women Under U.S. Occupation and Rising Fundamentalism». Democracy Now! (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ Mohammed, Yanar. «Meet Yanar Mohammed, Iraq». Nobel Women's Initiative. Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ Baghdad Burning:Girlblog from Iraq (em inglês), por Riverbend (Nova Iorque, 2005)
- ↑ Morewitz, Stephen J. (2008). Death Threats and Violence: New Research and Clinical Perspectives (em inglês). Nova Iorque: Springer-Verlag. p. 133. ISBN 978-0-387-76661-4. doi:10.1007/978-0-387-76663-8
- ↑ كوردستان 24, Kurdistan24- (2 de março de 2026). «اغتيال الناشطة العراقية ينار محمد بطلقات غادرة شمالي بغداد». اغتيال الناشطة العراقية ينار محمد بطلقات غادرة شمالي بغداد (em árabe). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Women activist shot dead outside her Baghdad home». Shafaq News (em inglês). 2 de março de 2026. Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Yanar Mohammed | Gruber Foundation». gruber.yale.edu (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «Yanar Mohammed». The Rafto Foundation (em inglês). Consultado em 8 de julho de 2022
- ↑ «Uma lista de 100 mulheres influentes e inspiradoras de todo o mundo, selecionadas pela BBC». BBC News Brasil. Consultado em 17 de dezembro de 2022
- ↑ «I am The Revolution» (em italiano). Consultado em 8 de julho de 2022
Ligações externas
[editar | editar código]- Entrevista com Yanar Mohammed na revista Guernica (em inglês)
- Entrevista com Yanar Mohammed (em inglês)
- Organização para a Liberdade das Mulheres no site do Iraque (em inglês)
- Site recente da Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque (em inglês)
