close

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

As flores que eu não tive.

BERJAYA

AS FLORES QUE EU NÃO TIVE 

Mãe! 
Olho para o verde musgo
que
depois da chuva 
cresceu e floriu 
sobre a terra da tua campa 
e um amargo sorriso 
aflora aos meus lábios 
ao ver-te 
toda coberta de bravas flores... 

São as flores 
que 
eu não tive 
para depor sobre essa campa 
quando 
fecharam-te os olhos 
cruzaram-te as mãos 
e te cobriram de pó 
— E eu te cobri de lágrimas! 

São as flores 
que 
eu não tive 
para 
ornar tua fronte 
de mártir e santa 
Oh minha mãe! 

João Rodrigues

BERJAYA

João Baptista Rodrigues nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 9/11/1931. 

Publicou: Os contos Monte Verde-Cara, O Casamento de Joaquim Dadana (noveleta), Caminhos Agrestes (contos), O Jardim dos Rubros Cardeais e Pérolas do Sertão (Poesia)

Fonte:www.antoniomiranda.com.br 

domingo, 30 de outubro de 2011

Os burros.

BERJAYA

OS BURROS

É preciso acabar com esse desprezo, ou com esse equívoco. Os burros não são burros. Olhem os olhos deles. Podem ser teimosos, às vezes, às vezes, podem ser maus. Buffon, que sabia mais do que nós, explicou que os burros ficam assim quando o sofrimento lhes mostra, depois de muitas provações, que os homens não prestam. A melhor defesa das culpas inventadas contra os burros é o amor que lhes têm tido os poetas. La Fontaine fez exceção. Os animais das Fábulas, porém, são homens disfarçados. Eu gosto dos burros. Principalmente dos que andam na dura lida, sobre as pedras das ruas, sobre o barro das estradas, ao sol, à chuva, dia e noite. Tristes, tristes. Sem nenhuma queixa. Que humildade! Que paciência! Que coragem! Pensam para dentro. Não procuram impor nem a sua vontade nem a sua opinião. Obedecem. Zurram. É um modo de dizer que não têm nada com isso. Se foram a guerra, foram levados. Combateram os filisteus, resumidos numa caveira, que Sansão brandiu, criando o mais puro dos símbolos. Um burro assistiu ao nascimento de Jesus. Um burro levou Jesus para a entrada festiva em Jerusalém. Não é fácil julgar criaturas de tamanha discrição. Dos burros, além dos nossos pontos de vista, só possuímos a aparência. Aparência que varia, conforme os nossos pontos de vista. Há quem os achem ridículos. Há quem os ache sublimes. São bonitos, ou feios, de acordo com os temperamentos. Já existe tanta crítica, de tanta coisa. Para que críticas dos burros? Bom, é lhes querer bem, admiti-los tais quais se revelam, incapazes de aborrecer os outros, inimigos da publicidade, calmos, resignados, melancólicos. Talvez, no mundo interior, conservem a alegria da infância, muito escondida, e continuam brincando com ela. O aspecto que vemos, vivido, será para uso externo; a inocência deteriorada. Quanto ao coice... quem nunca deu um coice, que atire nos burros a primeira pedra. 

Álvaro Moreyra

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Preconceituar"

BERJAYA

"PRECONCEITUAR" 

“Preconceituar é uma forma mesquinha de fomentar a discórdia e atravancar o desenvolvimento humano e social.” 

R.S. Furtado

Visite também:

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

As putas da avenida.

BERJAYA

AS PUTAS DA AVENIDA 

Eu vi gelar as putas da Avenida 
ao griso de Janeiro e tive pena 
do que elas chamam em jargão a vida 
com um requebro triste de açucena 

vi-as às duas e às três falando 
como se fala antes de entrar em cena 
o gesto já compondo à voz de mando 
do director fatal que lhes ordena 

essa pose de flor recém-cortada 
que para as mais batidas não é nada 
senão fingirem lírios da Lorena 

mas a todas o griso ia aturdindo 
e eu que do trabalho tinha vindo 
calçando as luvas senti tanta pena 

Fernando Assis Pacheco 

BERJAYA

Fernando Assis Pacheco nasceu em 1937, em Coimbra. A sua ascendência é galega pelo lado materno. Licenciou-se em Filologia Germânica, foi jornalista e crítico literário. Estreou-se, em 1963, com o livro Cuidar dos Vivos. Em 1972, publicou Câu Kiên: Um Resumo, um livro com título vietnamita para escapar à censura fascista, reeditado quatro anos mais tarde como Catalabanza Quiolo e Volta. Outros livros se seguiram, até que, em 1991, o poeta reuniu o conjunto da sua poesia, produzida ao longo de vinte e oito anos, num volume único intitulado A Musa Irregular. A sua obra conta também com algumas incursões na ficção. 

Livros editados mais recentemente: Respiração Assistida (Assíro & Alvim, 2003 e 2004); Variações em Sousa (Angelus Novus – Cotovia, 2004); Memórias de um Craque (Assírio & Alvim, 2005) e A Musa Irregular (Assírio & Alvin, 2006) 

Fernando Assis Pacheco morreu súbitamente, à porta de uma livraria em Lisboa, em 1995. 

Fonte: http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt 

Visite também: 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Liberdade.

BERJAYA

LIBERDADE 

Liberdade, tu hás-de chegar um dia 
eu sei. 
Se vieres tarde, 
para além do meu tempo de luta
e de conquista, 
não te esqueças 
que eu te amei 
universalmente 
e te busque sem desânimo 
durante toda a minha 
ignota 
permanência 
Detém-te pois um instante 
à beira do meu túmulo: 
morto embora, eu saberei sentir-te 
e conhecer-te 
e remorrer 
então 
tranquilamente. 

Jorge Rebelo 

BERJAYA

Jorge Rebelo, poeta político e natural de Maputo, onde nasceu em 1940. Licenciado em Direito. Seu ativismo político é feito dentro da FRELIMO. Seus poemas são militantes, para a guerrilha em que o poeta estava envolvido. Pertencia ao grupo "Core"

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br 

Visite também: 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Astronomia Nova.

BERJAYA
BERJAYA
 Johanne Kepler

ASTRONOMIA NOVA 

1609Johanne Kepler, sábio e astrônomo alemão, nasceu em Well (Wurtemberg) e faleceu em Ratisbonn (1571-1630), publica “Astronomia Nova” e expõe uma teoria sobre o planeta Marte, estabelecendo as seguintes leis, que tomaram seu nome e que Newton se aproveitou para deduzir o seu princípio de atração universal: 1.ª) as órbitas planetárias são elipses nas quais o Sol ocupa um dos focos; 2.ª) as áreas descritas pelos raios vectores que unem o centro do Sol ao centro do planeta, são proporcionais aos tempos empregados em descrevê-las e 3.ª) o quadrado dos tempos das revoluções planetárias são proporcionais aos cubos dos eixos maiores das suas órbitas. Quando Kepler terminou a sua maravilhosa obra, deixou aos pósteros uma prova da sua profunda humildade aliada à ciència, na seguinte página: “Antes de deixar esta mesa, sobre a qual fiz todas as minhas pesquisas, nada me resta senão elevar meus olhos e minhas mãos aos céus e endereçar, com devoção, a minha humilde prece ao autor de toda a luz. 

Ó Tu – que pelas luzes sublimes que espalhaste na Natureza, conduzes a nossa vontade à luz de Tua graça, a fim de que sejamos, um dia, arrebatados pela luz eterna de Tua glória – eu te rendo graças, Senhor e Criador, pelas alegrias e pelos êxtases experimentados na contemplação da obra de Tuas mãos! 

Eis que finalizei o livro que contém o fruto do Teu trabalho e ao qual empreguei toda inteligência que me hás dado. Proclamo, diante dos homens, a grandeza de Tuas obras. Eu lhes apresento hoje o testemunho de que meu espírito finito conseguiu captar da infinita vastidão. 

Fiz todo esforço para me elevar à Verdade pelos condutos da Filosofia, e se ela chegou a mim – miserável verme concebido e nutrido no pecado – com contradições indignas de Ti, faze-me conhecê-las, a fim de que possa suprimi-las. 

Não me haverei deixado abandonar às seduções da presunção, em presença da beleza de Tuas obras? Não estarei eu propondo o meu próprio renome entre os homens, elevando um monumento que deveria ser consagrado à Tua glória? 

Ó, se assim for, acolhe-me em Tua clemência e dá-me a graça de impedir que minha obra sirva ao mal e que ela possa contribuir para a glória e saúde dos espíritos!” 

Nota: Este trabalho é o resultado de pesquisas realizadas pelo ilustre professor Elias Barreto, e publicado pela Enciclopédia das Grandes Invenções e Descobertas, edição de 1967, volume 1, páginas 136/144.

Visite também: 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ao amor.

BERJAYA

AO AMOR

Meu tio-avô manuel morreu de amor 
em Póvoa de Varzim, num dia antigo. 
Eu quero bem a todos os parentes, 
mas é dêsse Manuel que sou amigo.  

Foi o sincero da família. Por 
destino, vocação, prêmio, ou castigo, 
os bons Moreyras, nós, tão diferentes, 
somos iguais no amor. Sei por que digo. 

Apenas não morremos. Continuamos, 
com o desejo que fica na saudade, 
com o sorriso que fica em cada dor.  

Árvores velhas, e de flor nos ramos, 
vamos amando para a eternidade, 
e o último amor ainda é o primeiro amor... 

Álvaro Moreyra 

BERJAYA

Quarto ocupante da Cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de agosto de 1959, na sucessão de Olegário Mariano e recebido pelo Acadêmico Múcio Leão em 23 de novembro de 1959. 

Álvaro Moreyra (A. Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues M. da Silva), poeta, cronista e jornalista, nasceu em Porto Alegre, RS, em 23 de novembro de 1888, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de setembro de 1964. 

Era filho de João Moreira da Silva, autor teatral, cronista e poeta, e de Maria Rita da Fonseca. Simplificou o longo nome de família para Álvaro Moreyra, com y (para que esta letra “representasse as supressões”). Veio para o Rio de Janeiro em 1910, onde concluiu o curso de Direito. Tornou-se amigo de Felipe d' Oliveira e Araújo Jorge. Entre 1912 e 1914 esteve em Paris e viajou também à Itália, à Bélgica e à Inglaterra. De volta ao Brasil, encetou a carreira jornalística no Rio, tendo sido redator de várias publicações: Fon-Fon, Bahia Ilustrada, A Hora, Boa Nova, Ilustração Brasileira, Dom Casmurro, Diretrizes e Para Todos. Quer ler mais? 

Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=115&sid=229 

Visite também: 

sábado, 22 de outubro de 2011

"Retidão".

BERJAYA

"RETIDÃO" 

“É muito fácil cobrar retidão nos procedimentos dos outros, o mais difícil é fazer por onde não ser cobrado.” 

R.S. Furtado 

Visite também: 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ecce Homo.

BERJAYA

ECCE HOMO 

Desbaratamos deuses, procurando 
Um que nos satisfaça ou justifique. 
Desbaratamos esperança, imaginando 
Uma causa maior que nos explique. 

Pensando nos secamos e perdemos 
Esta força selvagem e secreta, 
Esta semente agreste que trazemos 
E gera heróis e homens e poetas. 

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo 
Malhando-nos a carne, até que em brasa 
Nossos sexos furiosos se confundam, 

Nossos corpos pensantes se entrelacem 
E sangue, raiva, desespero ou asa, 
Os filhos que tivermos forem nossos. 

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue' 

BERJAYA

Oriundo de uma família da alta burguesia, José Carlos Ary dos Santos, conhecido no meio social e literário por Ary dos Santos, nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937. 

Aos catorze anos, a sua família publica-lhe alguns poemas, considerados maus pelo poeta. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett. 

É então que Ary dos Santos abandona a casa da família, exercendo as mais variadas actividades para seu sustento económico, que passariam desde a venda de máquinas para pastilhas até à publicidade. Contudo, paralelamente, o poeta não cessa jamais de escrever e em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas "A Liturgia do Sangue”. Quer ler mais?

Fonte: http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/ary_dos_santos/ary_biog.html