Como interpretei A Bruxa, de Robert Eggers

thewitchstill

Inicialmente, devo alertar que não pretendo elencar as qualidades visuais deste que é até o presente momento o “filme do ano”. Sim, considero A Bruxa um filme muito bem dirigido, com belos enquadramentos, atuações convincentes e uma fotografia cinzenta e rústica que consegue transmitir o espectador para uma outra época na história da humanidade. Como o próprio título sugere, apenas pretendo expor a minha singela interpretação sobre a obra – portanto, só recomendo a leitura para aqueles que efetivamente a conhecem.

Pois bem, antes de correr para o cinema e ver A Bruxa, resolvi assistir a um filme que estava há muito tempo na minha lista de prioridades, e que até então eu vinha relutando em conferir: trata-se de Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos, clássico do dinamarquês Benjamin Christensen lançado em 1922 – ou seja, há aproximadamente 100 anos. Essa pérola (uma espécie de semi-documentário) surge como um manifesto a favor da Ciência e do Devido Processo Legal, razão pela qual poderia ser facilmente recomendado para alunos das faculdades de Direito e Medicina (especialmente para as áreas do processo penal e da psiquiatria). Mas, evidentemente, pelo seu conteúdo essencialmente humanista, e pelas suas qualidades artísticas, creio que nenhuma pessoa poderia ficar indiferente diante de uma sessão noturna dessa obra-prima do cinema.

Vale ressaltar que o filme de Christensen surge em um momento da história da humanidade no qual a busca pelo rigoroso conhecimento científico alcançava um patamar sem precedentes. E não se tratava de um desejo pela ciência apenas para interpretar os fenômenos naturais, mas voltado também para as realidades sociais, ordenamentos jurídicos, etc. Portanto, novas descobertas e explicações científicas para todas as coisas que interessavam aos homens abriam espaço para um enorme otimismo ao progresso – pelo menos antes de sofrer forte abalo pela deflagração da Segunda Guerra Mundial e de todos os conflitos que surgiram posteriormente. Em suma, Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos pode ser visto como uma representação do espírito desses novos tempos, justamente para compreender fatos terríveis que aconteceram no passado e vislumbrar novos rumos para o futuro, iluminados pela interpretação racional feita pelo homem.

Logo na sua introdução, o filme expõe a ideia que serve de norte para toda a sua narrativa: “A crença em magias e bruxarias é provavelmente tão antiga quanto os primórdios do homem. Quando o homem primitivo se deparava com algo incompreensível, a explicação era sempre: magias e espíritos demoníacos”. Em sete capítulos, observamos como a ignorância e o preconceito levaram a perseguições de milhões de pessoas que eram chamadas de “bruxas”, quase todas mulheres, que por não se encaixarem em determinado modelo – ou por serem muito feias, pobres e sujas, ou então “estranhas”, muitas em decorrência de surtos psiquiátricos, ou até mesmo bonitas demais, “seduzindo” os homens além do que deveriam – sofreram violações extremas na sua liberdade por meio de processos inquisitórios marcados por torturas e ausência completa do direito de defesa, quase sempre terminando com a execução do “réu” (entre aspas justamente porque o procedimento inquisitório partia de uma certeza, e todos os seus atos eram realizados apenas para confirmá-la, pelo menos formalmente) com o máximo de sofrimento possível.

Então, foi com Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos em mente que analisei A Bruxa, filmes separados por praticamente um século, mas que no fundo têm como essência o mesmo pensamento, qual seja: não existe, nem nunca existiu, algo que possa ser chamado de “bruxaria”, como concretização terrena de forças demoníacas e macabras; apenas falsas percepções da realidade e transtornos psicológicos podem levar as pessoas a acreditarem na existência de algo parecido. Creio que o filme se firma nesse princípio basilar ao construir toda a sua narrativa, embora pudesse ter, naturalmente, tomado decisão diametralmente oposta, como o fez tão bem outro exemplar do terror contemporâneo: Corrente do Mal, dirigido por David Robert Mitchell.

a bruxa

Portanto, minha interpretação vai no sentido de que todos os fenômenos retratados no filme são consequência de transtornos mentais causados por: fanatismo religioso, ignorância, crença absoluta na existência do demônio, propagação de crendices, opressão moral, isolamento social e, acima de tudo, um permanente medo que acompanha a existência de todos os personagens, do nascimento até a vida adulta. Ou seja, não há nada que não possa ser racionalmente explicado e compreendido – e o filme dá indícios de crer nisso várias vezes, inclusive utilizando de meios levemente cômicos (quando filma, por exemplo, o bode [expiatório] chamado “Black Phillip”, que apesar de viver uma vida ordinária de animal, em determinado momento é tido pelos membros da família transtornada como representação do próprio diabo).

A família retratada no filme é composta por dois adultos, uma adolescente, três crianças e um bebê. São fanáticos protestantes, isolados do convívio social por motivos religiosos, imigrantes que mal conseguem sobreviver de sua plantação, que vêem o mundo ao redor com a marca profunda da ignorância, crendice e medo: à medida que fatos trágicos vão acontecendo, as respostas que alcançam são totalmente deturpadas e irracionais, fruto de algo que poderia ser superficialmente classificada como histeria.

No filme, a única personagem que enxerga o mundo de modo particularmente diferente é Thomasin, a adolescente interpretada pela bela Anya Taylor-Joy: em vários momentos, ela busca a verdade, comprovada em termos concretos, do fato-chave que desencadeou a decadência moral dos demais membros da família: o sumiço do bebê quando estava sob seus cuidados. Acontece que essa personagem, no final das contas, sucumbe a toda opressão e perseguição que os demais membros da família passam a praticar, passando a vê-la como “a bruxa” causadora de todo o infortúnio que os abate. É por isso que, na última cena, quando a vemos levitar com outras mulheres, estamos na verdade vendo o que se passa em sua mente, isto é, ela pensando que está levitando com suas semelhantes. Trata-se de uma ilusão, fruto de enorme desgaste emocional e psicológico que passou em curto período do tempo.

Mas cabe a pergunta: quem são os demais personagens que estão na floresta, tidos como dominados pelo demônio? Aqui também a resposta pode ser encontrada em Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos: embora não exista algo que possa ser chamado de bruxaria, prática portadora de forças sobrenaturais, muitas pessoas acreditavam – e continuam acreditando em pleno século XXI, diga-se – em magia negra, e praticavam rituais “satânicos” com o intuito de alcançar uma força superior para a realização de objetivos escusos, alcançar a cura de doenças desconhecidas ou até mesmo como vingança contra outras pessoas que lhes fizeram mal.

Portanto, creio que o rapto do bebê, posteriormente utilizado em um ritual com um objetivo de curar uma pessoa com deformidades físicas (acontecimento que o filme mostra rapidamente, não deixando de ser uma das cenas mais fortes) simplesmente teve o infortúnio de ter vivido em um ambiente tão escroto, ao lado de fanáticos religiosos e sem a presença de instituições que pudessem garantir um mínimo de segurança para a comunidade.

Essa é, enfim, a minha interpretação sobre A Bruxa: um ótimo filme que demonstra como percepções equivocadas da realidade, decorrentes especialmente da ignorância e da presença constante do MEDO em relação ao desconhecido, podem destruir uma família pacata em um breve período de tempo, da mesma forma como destruíram outras milhões na história da humanidade, e continuam a destruir, uma das possíveis razões pelas quais o filme de Robert Eggers, produzido pela produtora RT Features (do brasileiro Rodrigo Teixeira) se tornou um estranho fenômeno de público e crítica.