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Totalitarismo

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BERJAYA
Duas versões do cartaz de propaganda dos Estados Unidos da Segunda Guerra Mundial, intitulado "Your Lot in a Totalitarian State", representando um processo de votação compulsória em uma eleição fraudulenta realizada em Estados totalitários, cujas bandeiras — da Alemanha Nazista, da Itália Fascista[a] e da União Soviética — aparecem abaixo. Na versão à direita, produzida após a Operação Barbarossa, a bandeira da União Soviética, integrante dos Aliados, foi substituída pela do Império do Japão[b], integrante das Potências do Eixo, que nem sempre é considerado totalitário por estudiosos ocidentais.[1] No caso da União Soviética, essa classificação também recebeu críticas.[2][3]

Totalitarismo é um sistema político e uma forma de governo que controla completamente as esferas pública e privada da sociedade. Caracteriza-se pela proibição de partidos políticos de oposição e pela repressão extrema dos opositores do Estado. No campo da ciência política, o totalitarismo é a forma extrema de autoritarismo, na qual todo o poder político é exercido por um ditador. Essa figura controla a política nacional e a população do país por meio de campanhas contínuas de propaganda, transmitidas por meios de comunicação de massa controlados pelo Estado ou por veículos privados alinhados a ele.[4]

Um governo totalitário utiliza a ideologia para controlar a maior parte dos aspectos da vida humana, como a economia política do país, o sistema de educação, as artes e as ciências, além da moralidade privada de seus cidadãos.[5] No exercício do poder, a diferença entre um governo totalitário e um governo autoritário é uma questão de grau. Enquanto o totalitarismo apresenta um ditador dotado de liderança carismática e uma cosmovisão fixa, o autoritarismo apresenta apenas um ditador que mantém o poder com a finalidade de conservá-lo. O ditador autoritário é apoiado, conjunta ou individualmente, por uma junta militar e pelas elites socioeconômicas que constituem a classe dominante do país.[6]

A palavra totalitário foi utilizada pela primeira vez no início da década de 1920 para descrever o governo da Itália Fascista.[7][8] O termo totalitarismo adquiriu uso mais amplo na política do período entreguerras. Nos primeiros anos da Guerra Fria, surgiu como um conceito teórico da ciência política ocidental, derivado da comparação entre a União Soviética sob Josef Stalin e a Alemanha Nazista sob Adolf Hitler. O termo tornou-se hegemônico na explicação da natureza dos Estados fascistas e comunistas e posteriormente ingressou na historiografia ocidental do comunismo, da União Soviética e da Revolução Russa de 1917. No século XXI, passou a ser aplicado a movimentos e governos ligados ao islamismo político. O conceito de totalitarismo foi contestado e criticado por alguns historiadores da Alemanha Nazista e da União Soviética stalinista. Embora os dois Estados sejam definidos como casos exemplares de totalitarismo, esses historiadores argumentam que as principais características do conceito — controle total da sociedade, mobilização total das massas e caráter monolítico e centralizado do governo — nunca foram alcançadas pelas ditaduras classificadas como totalitárias. Para sustentar essa afirmação, argumentam que as estruturas políticas desses Estados eram desorganizadas e caóticas e que, apesar das supostas semelhanças externas entre o nazismo e o stalinismo, suas lógicas e estruturas internas eram substancialmente diferentes. A aplicabilidade do conceito ao islamismo também foi criticada.[9][10][11]

Definições

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Contexto contemporâneo

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Josef Stalin (à esquerda), líder da União Soviética, e Adolf Hitler (à direita), líder da Alemanha Nazista, respectivamente associados à esquerda e à direita no espectro político; o totalitarismo como conceito da ciência política ocidental e, posteriormente, da historiografia surgiu da comparação entre seus regimes,[9] definidos como casos exemplares de totalitarismo.[10]

A ciência política moderna classifica três regimes de governo: o democrático, o autoritário e o totalitário.[12][13] Variando conforme a cultura política, as características funcionais de um regime totalitário são: a repressão política de toda oposição, individual ou coletiva; um culto de personalidade em torno do Líder; o intervencionismo econômico oficial, com controle de salários e preços; a censura oficial de todos os meios de comunicação de massa, incluindo imprensa, livros didáticos, cinema, televisão, rádio e internet; o policiamento oficial dos espaços públicos por meio da vigilância em massa; e o terrorismo de Estado.[4] No ensaio "Democide in Totalitarian States" (1994), o cientista político americano Rudolph Joseph Rummel, embora reconhecesse que havia "muita confusão sobre o significado de totalitário, chegando-se até mesmo a negar que sistemas totalitários tenham existido", definiu um Estado totalitário como:

"Um Estado com um sistema de governo que não é limitado, seja constitucionalmente, seja por poderes compensatórios existentes na sociedade — como uma Igreja, uma pequena nobreza rural, sindicatos ou poderes regionais —; que não é responsabilizado perante o público por meio de eleições periódicas, secretas e competitivas; e que emprega seu poder ilimitado para controlar todos os aspectos da sociedade, incluindo a família, a religião, a educação, as empresas, a propriedade privada e as relações sociais."

Segundo Rummel, esses governos atuam como "agentes do próprio totalitarismo", isto é, da "ideologia do poder absoluto", que instala uma "mortacracia" nos Estados por ela controlados. Rummel citou o marxismo-leninismo e o comunismo na União Soviética sob Josef Stalin, na China sob Mao Tsé-Tung e na Alemanha Oriental; o nazismo na Alemanha sob Adolf Hitler e o fascismo em outros Estados; o socialismo estatal, representado pela Via birmanesa para o socialismo, na Birmânia sob U Ne Win; e o fundamentalismo islâmico, ou islamismo, no Irã, como exemplos de totalitarismo.[14][15] Entretanto, nem todos os estudiosos consideram que esses regimes e ideologias sejam exemplos de totalitarismo. Alguns defensores do conceito excluem a Birmânia,[16] o Irã[17] e até mesmo a Itália Fascista[18] dessa categoria, enquanto historiadores que afirmam que o conceito não descreve adequadamente nem o stalinismo nem o nazismo criticam o conceito de totalitarismo de modo geral, como discutido abaixo.

Grau de controle

No exercício do poder governamental sobre a sociedade, a aplicação de uma ideologia oficial dominante diferencia a cosmovisão do regime totalitário da cosmovisão do regime autoritário, que "se preocupa apenas com o poder político e, desde que [o poder governamental] não seja contestado, [o governo autoritário] concede à sociedade certo grau de liberdade".[6] Por não possuir uma ideologia a propagar, o governo autoritário politicamente secular "não procura transformar o mundo nem a natureza humana",[6] enquanto o "governo totalitário busca controlar completamente os pensamentos e as ações de seus cidadãos"[5] por meio de uma "ideologia totalista oficial, de um partido [político] reforçado por uma polícia secreta e do controle monopolista da sociedade de massa industrial".[6]

Contexto histórico

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Para o influente filósofo Karl Popper, o fenômeno social do totalitarismo político é um produto do modernismo, cuja origem, segundo ele, estava na filosofia humanista: na A Repúblicares publica — proposta por Platão na Grécia Antiga, na concepção de Hegel do Estado como organização política dos povos e na economia política de Karl Marx no século XIX.[19] Historiadores e filósofos desses períodos, entretanto, contestam a precisão historiográfica da interpretação de Popper, formulada no século XX, e de sua delimitação das origens históricas do totalitarismo, pois, por exemplo, o filósofo grego antigo Platão não inventou o Estado moderno.[20] A abordagem de Popper foi descrita como uma negação radical da causalidade histórica[21] e como uma tentativa a-histórica de apresentar o totalitarismo e o liberalismo não como produtos do desenvolvimento histórico, mas como categorias eternas e atemporais da própria humanidade.[22]

Houve tentativas "ideocráticas"[9] semelhantes nas tradições do contrailuminismo[23] de remontar o totalitarismo a períodos anteriores ao século XX. Eric Voegelin considerava o totalitarismo "o destino final da busca gnóstica por uma teologia civil", um epílogo do processo de secularização iniciado com a Reforma Protestante e que teria conduzido a um mundo desprovido de religiosidade. Jacob Talmon considerava o totalitarismo uma fusão da democracia radical de esquerda — representada por Jean-Jacques Rousseau, Maximilien de Robespierre e François Noël Babeuf — com o irracionalismo de direita — representado por Johann Gottlieb Fichte —, como tradições opostas ao liberalismo empírico.[9] Os filósofos alemães Max Horkheimer e Theodor W. Adorno viam o totalitarismo como um destino inevitável da modernidade, enraizado nas origens da civilização ocidental, e como o resultado final da evolução do Iluminismo, da razão emancipatória para a racionalidade instrumental.[22] Também o consideravam produto da proposição antropocêntrica segundo a qual: "O homem tornou-se o senhor do mundo, um senhor desvinculado de quaisquer ligações com a natureza, a sociedade e a história", o que excluiria a intervenção de seres sobrenaturais na política terrena dos governos.[24]

Enzo Traverso considera que a ideia de "Estado total", posteriormente denominado "Estado totalitário", teve origem no conceito de guerra total, utilizado pelos contemporâneos para descrever a Primeira Guerra Mundial. A guerra "moldou a imaginação de toda uma geração" ao racionalizar o niilismo e a "destruição metódica do inimigo", introduzindo "um novo ethos guerreiro, no qual os antigos ideais do heroísmo e da cavalaria se fundiram à tecnologia moderna", além de um processo de brutalização da política e de exemplos de "matança industrial planejada em escala continental", como o Genocídio armênio. A "guerra total" transformou-se em "Estado total" e, depois da guerra, a expressão foi empregada de forma pejorativa pelos integrantes da resistência antifascista italiana da década de 1920 e, posteriormente, pelos próprios fascistas italianos.[9]

O historiador americano William Rubinstein escreveu:

A "Era do Totalitarismo" incluiu quase todos os exemplos infames de genocídio na história moderna, liderados pelo Holocausto dos judeus, mas compreendendo também as mortes em massa e os expurgos do mundo comunista, outras matanças em massa realizadas pela Alemanha Nazista e por seus aliados, além do genocídio armênio de 1915. Todas essas matanças, argumenta-se aqui, tiveram uma origem comum: o colapso da estrutura das elites e dos modos normais de governo em grande parte da Europa Central, Oriental e Meridional em consequência da Primeira Guerra Mundial, sem a qual certamente nem o comunismo nem o fascismo teriam existido, exceto nas mentes de agitadores desconhecidos e excêntricos.[25]

No século XX, Giovanni Gentile classificou o fascismo italiano como uma ideologia política cuja filosofia era "totalitária, e [na qual] o Estado fascista — uma síntese e uma unidade que abrange todos os valores — interpreta, desenvolve e potencializa toda a vida de um povo". Gentile expressou suas ideias em "A doutrina do fascismo" (1932), ensaio escrito em coautoria com Benito Mussolini.[26] Na Alemanha da década de 1920, durante a República de Weimar (1918–1933), o jurista nazista Carl Schmitt integrou a filosofia fascista de Gentile, baseada na unidade dos propósitos nacionais, à ideologia do líder supremo expressa pelo Führerprinzip.

Desde a Guerra Fria, os chamados historiadores "tradicionalistas" ou "totalitários", discutidos abaixo, argumentam[27][28] que Lenin, um dos líderes da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, foi o primeiro político a estabelecer um Estado totalitário.[29][30][31][32][33] Essa descrição de Lenin é contestada pelos chamados historiadores "revisionistas" do comunismo e da União Soviética,[27] assim como por um amplo conjunto de autores, entre eles Hannah Arendt.[34][28]

Como o Duce que conduziria o povo italiano ao futuro, Benito Mussolini afirmou que seu regime ditatorial havia transformado a Itália Fascista (1922–1943) no representante do "Estado Totalitário": "Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado."[35] Da mesma forma, em O conceito do político (1927), o jurista nazista Schmitt utilizou a expressão der Totalstaat — "o Estado Total" — para identificar, descrever e estabelecer a legitimidade de um Estado totalitário alemão conduzido por um líder supremo.[36] Posteriormente, Joseph Goebbels declararia que um Estado totalitário era o objetivo do Partido Nazista,[37] embora o conceito tenha perdido importância no discurso nazista.[9]

Após a Segunda Guerra Mundial (1937–1945), o discurso político dos Estados Unidos, tanto interno quanto externo, passou a incluir os conceitos ideológicos e políticos e os termos totalitário, totalitarismo e modelo totalitário. Nos Estados Unidos do pós-guerra, durante a década de 1950, políticos ligados ao macarthismo, com a finalidade de desacreditar politicamente o antifascismo da Segunda Guerra Mundial como uma política externa equivocada e, simultaneamente, direcionar os antifascistas contra o comunismo, afirmaram que o totalitarismo de esquerda representava uma ameaça existencial à civilização ocidental. Dessa forma, facilitaram a criação do Estado americano de segurança nacional para executar a Guerra Fria anticomunista — 1945–1989 —, travada por meio de Estados clientes dos Estados Unidos e da União Soviética.[38][39][40][41][42]

Embora o conceito de totalitarismo tenha se tornado dominante no discurso político anglo-americano depois da Segunda Guerra Mundial, ele permaneceu relativamente negligenciado na Europa continental, com exceção da Alemanha Ocidental. Em países como a Itália e a França, onde os partidos comunistas desempenharam papel hegemônico na resistência antifascista, as obras pioneiras da teoria do totalitarismo de autores como Hannah Arendt, Zbigniew Brzezinski e Carl Friedrich foram frequentemente ignoradas ou sequer traduzidas. Nesses países, a teoria política do totalitarismo foi promovida pelo Congresso pela Liberdade da Cultura, apoiado pela CIA.[9]

Historiografia

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"Totalitários" e "revisionistas"

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Propaganda anticomunista na Alemanha Ocidental (1953): "Todos os caminhos do marxismo levam a Moscou! Portanto, CDU".

A historiografia ocidental da URSS e do período soviético da história russa divide-se em duas escolas de pesquisa e interpretação: (i) a escola historiográfica tradicionalista e (ii) a escola historiográfica revisionista;[43] os tradicionalistas e neotradicionalistas, ou antirrevisionistas, também são conhecidos como integrantes da "escola totalitária", da "abordagem totalitária" ou como historiadores da Guerra Fria,[27][28] por recorrerem a conceitos e interpretações enraizados nos primeiros anos da Guerra Fria e até mesmo no meio dos emigrados brancos russos da década de 1920.[27]

Os historiadores da escola tradicionalista caracterizam-se como relatores objetivos do suposto totalitarismo inerente ao Marxismo, ao Comunismo e à natureza política dos Estados comunistas, como a URSS, enquanto os revisionistas da Guerra Fria criticaram o viés politicamente liberal e anticomunista que percebiam na predominância dos tradicionalistas e descreveram sua abordagem como emocional e excessivamente simplificadora.[43] Os historiadores da escola revisionista criticam a concentração da escola tradicionalista nos aspectos de Estado policial da história da Guerra Fria, o que, segundo eles, conduz[não consta na fonte citada] a uma interpretação anticomunista da história, tendenciosa em favor de uma leitura de direita dos fatos documentais. Os revisionistas também se opõem à equiparação entre nazismo, comunismo e stalinismo e enfatizam suas diferenças ideológicas, como as origens humanistas e igualitárias da ideologia comunista.[43] Na década de 1960, os revisionistas que estudavam a Guerra Fria e o movimento comunista nos Estados Unidos criticaram as ideias predominantes de que os comunistas americanos constituíam uma ameaça real ao país[43] e de que a Guerra Fria havia sido provocada pelas ambições territoriais e políticas de Stalin e pelo expansionismo soviético, cuja suposta pretensão de conquistar o mundo teria obrigado os Estados Unidos a abandonar o isolacionismo e adotar uma política global de contenção.[28]

A diferença entre essas duas orientações historiográficas não é apenas política, mas também metodológica: os "tradicionalistas" concentram-se na política, na ideologia e nas personalidades dos dirigentes bolcheviques e comunistas, colocando-os no centro da história e ignorando em grande parte os processos sociais,[28] além de apresentarem uma "história vista de cima", conduzida pelos líderes. Os revisionistas, por sua vez, enfatizam a "história vista de baixo"[27] e a história social do governo soviético,[28] descrevendo os tradicionalistas como "românticos de direita".[43] Os tradicionalistas, por sua vez, defendem sua abordagem e sua metodologia, rejeitam a ênfase na história social e acusam seus adversários de marxismo, de racionalizarem as ações dos bolcheviques e de não reconhecerem o papel primordial de "um único homem" na liderança de um movimento — Lenin ou Adolf Hitler. Entre o fim da década de 1970 e o início da década de 1980, as abordagens revisionistas tornaram-se amplamente aceitas nos meios acadêmicos, e o termo "revisionismo" passou a caracterizar um grupo de historiadores sociais concentrados na classe trabalhadora e nas convulsões dos anos de Stalin. Ao mesmo tempo, os historiadores tradicionalistas conservaram popularidade e influência fora dos meios acadêmicos, especialmente nas esferas política e pública dos Estados Unidos, onde apoiavam políticas mais rígidas em relação à URSS. Por exemplo, Zbigniew Brzezinski exerceu o cargo de conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, enquanto Richard Pipes, destacado historiador da "escola totalitária", chefiou o grupo Team B da CIA. Após 1991, suas interpretações adquiriram popularidade não apenas no Ocidente, mas também na antiga URSS.[28]

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Cartaz de propaganda soviética de 1920 com uma caricatura elogiosa de Lenin, feita por Viktor Deni. Segundo os historiadores "tradicionalistas", Lenin foi o primeiro político a estabelecer um regime totalitário; essa descrição foi contestada pelos "revisionistas" e por outros autores.

Leninismo e Revolução de Outubro

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Desde a década de 1980, há um debate entre tradicionalistas e revisionistas sobre a natureza da Revolução de Outubro, assim como sobre a natureza do governo de Lenin. Os estudiosos tradicionalistas consideram que o governo de Lenin foi uma ditadura totalitária, enquanto os revisionistas discordam; o argumento central dos tradicionalistas baseia-se na convicção de que a Revolução foi um ato violento realizado "de cima para baixo" por um pequeno grupo de intelectuais mediante o uso de força bruta.[27] Historiadores tradicionalistas como Richard Pipes afirmaram que a Rússia Soviética entre 1917 e 1924 era tão totalitária quanto a União Soviética sob Stalin. Também afirmaram que o totalitarismo stalinista foi uma simples continuação das políticas de Lenin, pois o stalinismo já estaria prefigurado na ideologia leninista,[34][44] que Lenin teria sido o "inventor" do totalitarismo — segundo Riley — e que os governos totalitários posteriores apenas aplicaram as políticas já inventadas.[30] Pipes, por exemplo, comparou Lenin a Hitler e afirmou que os "holocaustos stalinista e nazista" derivaram do Terror Vermelho de Lenin e possuíam "muito mais decoro" que este.[28]

Os revisionistas, ao contrário, enfatizaram a natureza genuinamente "popular" da Revolução de 1917 e tenderam a identificar uma descontinuidade entre o leninismo e o stalinismo.[27] O historiador revisionista Ronald Suny cita Hannah Arendt, que distinguiu o terror de Lenin durante a Guerra Civil Russa — "um meio de exterminar e amedrontar os adversários" — do terror totalitário, voltado não contra inimigos específicos, mas à realização de objetivos ideológicos e à solução dos problemas da desigualdade e da pobreza, constituindo "um instrumento para governar massas perfeitamente obedientes".[28] Também se observou que Stalin somente se tornou um ditador incontestável após um período de "pluralismo autoritário",[10] enquanto a ditadura de partido único e a violência em massa — o Terror Vermelho — foram interpretadas não como resultado de um "projeto" totalitário de Lenin, mas como reações, embora justificadas pela ideologia, aos acontecimentos e fatores externos da época, incluindo as condições de guerra e a luta pela sobrevivência.[44][28] Alguns historiadores destacaram ainda as tentativas iniciais dos bolcheviques de formar um governo de coalizão.[45]

Martin Malia observou que os debates historiográficos possuíam importância política: se os "tradicionalistas" estivessem corretos, o "Comunismo" "deveria ser abolido"; caso contrário, poderia ser reformado.[28] A interpretação da relação entre Lenin e Stalin como uma continuidade do regime totalitário foi consensual durante um longo período. Os primeiros revisionistas da década de 1960, historiadores sociais, também consideravam que havia continuidade, mas a entendiam como uma continuidade das políticas de modernização, e não do totalitarismo. A partir do fim da década de 1960, a disponibilidade de novos materiais soviéticos permitiu que historiadores como Moshe Lewin contestassem essa continuidade e rompessem o consenso.[46] Segundo Evan Mawdsley, a escola "revisionista" tornou-se dominante a partir da década de 1970 e obteve "algum êxito" ao contestar os tradicionalistas.[27]

Os revisionistas sobre o stalinismo

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Documento da coleção de Henri Max Corwin que equipara o nazismo ao stalinismo.

A morte de Stalin, em 1953, tornou obsoleto o modelo totalitário simplista da URSS como Estado policial e expressão máxima do "Estado totalitário".[47] A partir da década de 1970, historiadores "revisionistas",[48] descritos como aqueles que "insistiam que a antiga imagem da União Soviética como um Estado totalitário empenhado em dominar o mundo era excessivamente simplificada ou simplesmente incorreta" e que se concentravam não na tipologia do poder, mas na história social,[49][9] como Sheila Fitzpatrick, começaram a contestar o paradigma totalitário. Sem negar a violência estatal praticada pelo governo, esses estudiosos argumentaram que o sistema stalinista não podia governar, e não governava, apenas mediante coerção e terror. Apontaram a existência de apoio popular a muitas das políticas de Stalin e sustentaram que o partido e o Estado frequentemente respondiam aos desejos e valores da população.[48] Além disso, examinaram as diferenças substanciais entre a violência stalinista e a nazista, que inevitavelmente colocavam em dúvida a tentativa de reunir os regimes de Stalin e Hitler em uma única categoria representada pelo conceito de totalitarismo.[9]

Em 1999, os sociólogos Randall Collins e David Waller incluíram o conceito de totalitarismo entre as "teorias que estavam completamente erradas". Em Beyond Totalitarianism: Stalinism and Nazism Compared (2008), Fitzpatrick e Michael Geyer examinaram criticamente o conceito de totalitarismo, realizaram uma comparação detalhada das semelhanças e diferenças substanciais entre Hitler e Stalin e chegaram a uma conclusão compatível com a posição de Collins e Waller.[50]

Alguns historiadores que não se alinhavam à "escola revisionista" posteriormente afirmaram de maneira explícita que o sistema stalinista não poderia ser considerado totalitário. O historiador Robert Service, por exemplo, escreveu em sua biografia de Stalin que "esta não era uma ditadura totalitária conforme a definição convencional, pois Stalin não possuía a capacidade, mesmo no auge de seu poder, de assegurar o cumprimento automático e universal de suas vontades".[51] Eric Hobsbawm escreveu que, embora Stalin realmente pretendesse alcançar o controle total da população, ele não estabeleceu um sistema verdadeiramente totalitário, o que, segundo o historiador, "lança dúvidas consideráveis sobre a utilidade do termo".[52]

Segundo Fitzpatrick, a "produção acadêmica baseada no modelo totalitário" — que representava a URSS como uma "entidade dirigida de cima para baixo", com um partido monolítico fundamentado na ideologia e governando uma sociedade passiva por meio do terror — "era, na realidade, uma imagem espelhada da autorrepresentação soviética, mas com os sinais morais invertidos: em vez de o partido estar sempre certo, estava sempre errado".[9] Um elemento comum às interpretações da escola revisionista sobre a era de Stalin — 1927–1953 — era a caracterização da URSS como um país com instituições sociais frágeis e do terrorismo de Estado contra os cidadãos soviéticos como evidência da ilegitimidade política do governo de Stalin.[47] Para os críticos do modelo totalitário, o terror de Estado era sinal de um governo fraco. J. Arch Getty escreveu sobre um "partido tecnicamente fraco e politicamente dividido, cujas relações organizacionais parecem mais primitivas do que totalitárias", ao comentar o Arquivo de Smolensk. Assim, a crítica ao modelo aceito começou pela classificação do stalinismo como um "totalitarismo ineficiente", no qual o ditador precisava recorrer a "métodos de choque" para enfrentar a resistência das autonomias e administrações locais e o faccionalismo político dentro do aparelho, inclusive em seus níveis mais elevados.[10]

Os cidadãos da URSS não eram desprovidos de agência individual nem de recursos materiais para viver, tampouco haviam sido psicologicamente atomizados pela ideologia totalista do Partido Comunista da União Soviética,[53] pois "o sistema político soviético era caótico, as instituições frequentemente escapavam ao controle do centro, e a liderança de Stalin consistia, em grande medida, em responder, de maneira ad hoc, às crises políticas à medida que surgiam".[54] Muitos expurgos e campanhas de coletivização forçada foram iniciativas locais ou até mesmo "populares" que Stalin e seus subordinados não conseguiam controlar, enquanto a população resistia coletivamente por meio de métodos como a recusa em trabalhar com eficiência e a migração de milhões de pessoas.[10]

A legitimidade do regime de Stalin dependia tanto do apoio popular dos cidadãos soviéticos quanto do terrorismo de Estado empregado para obter sua submissão. Ao expurgar politicamente da sociedade soviética as pessoas consideradas antissoviéticas, Stalin criou oportunidades de emprego e de ascensão social para a geração pós-guerra de cidadãos da classe trabalhadora, para os quais esse progresso socioeconômico não estava disponível antes da Revolução Russa de 1917 — 1917–1924. As pessoas beneficiadas pela engenharia social de Stalin tornaram-se stalinistas leais à URSS. Desse modo, a Revolução teria cumprido sua promessa para esses cidadãos, que apoiavam Stalin apesar do terrorismo de Estado.[53]

Os revisionistas também realizaram novos estudos comparativos entre o Terceiro Reich e a URSS, mas enfatizaram diferenças substanciais entre eles. Os fascismos tiveram duração muito menor, mas passaram por uma radicalização cumulativa até seu colapso, enquanto o stalinismo surgiu em um país estabilizado e pacificado e desintegrou-se em razão de uma crise interna após um período pós-totalitário. O fascismo preservou as elites tradicionais, enquanto o stalinismo resultou de uma revolução e de uma transformação social radical; suas ideologias eram antagônicas. O modelo totalitário equiparava as autoridades carismáticas de Stalin, Hitler e Mussolini, mas elas eram diferentes: Hitler e Mussolini eram figuras populares de "homens providenciais", que necessitavam de contato quase físico com seus seguidores e personificavam com o corpo e o comportamento o "Novo Homem" totalitário, enquanto o culto a Stalin é descrito como distante, inteiramente artificial e muito mais remoto. Stalin nunca se fundiu com o povo, permanecendo sempre "oculto de seus seguidores".

A violência estatal em massa também era diferente: a violência soviética era principalmente interna, enquanto a nazista era sobretudo externa. A primeira constituía um meio ineficiente e irracional para alcançar um objetivo racional — a modernização —, enquanto os nazistas buscavam objetivos extremamente irracionais mediante métodos industriais racionais. A eficiência dos campos de trabalho forçado soviéticos — os gulags — era medida pelas autoridades em função de resultados práticos, como a construção de ferrovias, que eventualmente estabeleceriam as bases da modernidade, enquanto o nazismo mobilizou a indústria para o extermínio, e a eficiência dos campos de extermínio era medida pelo número de mortes. Assim, segundo os revisionistas, os dois regimes cometeram violência em massa desumana, mas suas lógicas internas eram fundamentalmente diferentes.[9]

No caso da Alemanha Oriental, Eli Rubin sustentou que ela não era um Estado totalitário, mas uma sociedade moldada pela confluência de circunstâncias econômicas e políticas específicas que interagiam com as preocupações dos cidadãos comuns.[55]

Nazismo e fascismo

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Otto Schumann, Arthur Seyss-Inquart e Fritz Schmidt premiam uma esportista com um retrato de Adolf Hitler.

Enzo Traverso e Andrew Vincent observam que a "abordagem totalitária", ou o conceito teórico de totalitarismo — que apresentava a ideia de um partido monolítico, da ausência de separação entre Estado e sociedade, da mobilização total das massas atomizadas e do controle completo sobre o Estado, a sociedade e a economia —, não se aplica à URSS, à Alemanha Nazista nem aos Estados fascistas. Segundo eles, esses regimes tampouco apresentavam uma estrutura monolítica que exercesse controle total sobre a sociedade. Pelo contrário, a burocracia nazista era altamente "caótica", anômica, desorganizada e desunida, enquanto Adolf Hitler era um "ditador fraco" e um líder de laissez-faire, conforme afirmaram historiadores como Hans Mommsen e Ian Kershaw.[9][10] Essa descrição da Alemanha Nazista foi apresentada pela primeira vez em 1942 por Franz Neumann, na obra Behemoth: The Structure and Practice of National Socialism, na qual retratou provocativamente o hitlerismo como "um Beemote, um não Estado, um caos, um governo da ilegalidade, da desordem e da anarquia". Posteriormente, essa interpretação foi incorporada à historiografia do nazismo. Na década de 1970, historiadores alemães da escola funcionalista apresentaram o nazismo como um sistema policrático, fundamentado em diferentes centros de poder — o Partido Nazista, as Forças Armadas, as elites econômicas e a burocracia estatal. Para esses historiadores, o Estado totalitário monolítico e o partido monolítico constituíam apenas uma fachada, de maneira semelhante à avaliação de Fitzpatrick sobre o stalinismo.[9][11]

Historiadores como Mommsen e Ian Kershaw criticaram os conceitos de totalitarismo e se concentraram na falta de coerência burocrática do sistema nazista e em sua tendência imanente à autodestruição. Michael Mann escreveu que essas descrições colocavam em dúvida as teorias do totalitarismo, pois "é difícil imaginar algo menos semelhante à burocracia rígida, vertical e descendente da teoria totalitária", embora considerasse que o stalinismo e o nazismo "pertencem um ao outro" e que "a única questão é encontrar o nome de família correto". Segundo Mann:

"Os teóricos do totalitarismo retrataram um grau de coerência irreal para qualquer Estado. Os Estados modernos estão muito distantes da burocracia racional hegeliana ou weberiana e raramente atuam como agentes únicos e coerentes. Normalmente, os regimes são divididos em facções; em um mundo imprevisível, avançam aos tropeços e cometem muitos erros. Em segundo lugar, devemos recordar o argumento essencial de Weber sobre a burocracia: ela mantinha a política fora da administração. Os valores políticos e morais — a 'racionalidade quanto aos valores' — eram estabelecidos fora da administração burocrática, que então se limitava a encontrar os meios eficientes para aplicar esses valores — a 'racionalidade formal'. Ao contrário da teoria totalitária, os Estados do século XX mais capazes de estabelecer uma burocracia formalmente racional não eram as ditaduras, mas as democracias."[10]

O conceito de totalitarismo apareceu nos debates entre historiadores e intelectuais públicos alemães conhecidos como Historikerstreit. Um dos lados defendia a ideia da excepcionalidade do nazismo, enquanto seus adversários conservadores acreditavam que o Terceiro Reich poderia ser explicado por meio da comparação com a URSS. Ao mesmo tempo, historiadores conservadores como Karl Dietrich Bracher e Klaus Hildebrand rejeitavam a classificação do nazismo como uma vertente de um fascismo genérico, argumentando que a singularidade do nazismo residia na pessoa e na ideologia de Hitler e que ele era definido principalmente pela personalidade e pelas convicções pessoais do líder, e não por fatores externos.[56]

Stanley G. Payne escreveu que, de fato, tanto Mussolini quanto Hitler não conseguiram alcançar o totalitarismo pleno. Sobre Mussolini, afirmou-se que seu regime não era totalitário. A exclusão da Itália "meramente fascista" da categoria dos regimes totalitários foi iniciada por Hannah Arendt, que também considerava que o nazismo somente se tornou totalitário entre 1938 e 1942. Essa posição não é incomum na historiografia contemporânea, embora permaneça contestada.[18]

Payne concluiu, portanto, que "somente um sistema socialista ou comunista pode alcançar o totalitarismo pleno, pois o controle total exige uma revolução institucional completa que somente pode ser realizada pelo socialismo estatal". Segundo Payne, tanto Lenin quanto Stalin eram totalitários. Ele escreveu que "é fácil argumentar que muitos tipos diferentes de regimes são totalitários ou, inversamente, que nenhum deles foi perfeitamente total", mas considerou que o conceito de "totalitarismo é válido e útil quando definido no sentido preciso e literal de um sistema estatal que procura exercer controle direto sobre todos os aspectos significativos das principais instituições nacionais".[57]

Debates posteriores

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Décadas de 1980 e 1990

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Grafite "antitotalitário" em Bucareste, na Romênia, em 2013, equiparando o comunismo ao nazismo e à Guarda de Ferro.

Em 1987, Walter Laqueur rejeitou os argumentos dos revisionistas como "reavaliações de Stalin e do stalinismo" e comparou-os aos historiadores "revisionistas" alemães do nazismo, especialmente Ernst Nolte, que ele não diferenciava dos historiadores funcionalistas do nazismo, defensores da tese do "ditador fraco". Laqueur classificou suas análises como "marxistas", para as quais Stalin seria um "material pouco promissor".[58] Segundo Laqueur, os historiadores que discordavam dos revisionistas "ainda nutriam sentimentos muito fortes" em relação ao stalinismo e consideravam conceitos como o de modernização instrumentos inadequados para explicar a história soviética, ao contrário do conceito de totalitarismo. Citando o uso do termo "totalitarismo" por Mikhail Gorbatchov, Laqueur escreveu que os esforços revisionistas para abolir o modelo totalitário haviam "se tornado difíceis".[59]

Laure Neumayer afirmou que, "apesar das controvérsias sobre seu valor heurístico e seus pressupostos normativos, o conceito de totalitarismo retornou vigorosamente aos campos político e acadêmico no fim da Guerra Fria".[60] Em 1978, o termo foi "revitalizado" na Europa Ocidental. Historiadores como François Furet produziram reavaliações críticas "revisionistas" da Revolução Francesa, que, segundo eles, teria levado ao surgimento do totalitarismo. Na Itália, historiadores "antiantifascistas", principalmente Renzo De Felice e, posteriormente, Emilio Gentile, contestaram o "mito" produzido pelo papel hegemônico dos comunistas na resistência italiana. Eles afirmaram que, para a Itália, a escolha entre o fascismo e o comunismo era equivalente e sugeriram que o segundo poderia ter sido ainda pior. Isso levou ao ressurgimento do conceito de totalitarismo como uma nova dimensão dos estudos sobre o fascismo, enquanto aqueles que contestavam suas teorias foram "varridos" pelo colapso do Bloco de Leste, entre 1989 e 1991.

Em 1995,[61] Furet realizou uma análise comparativa[62] e empregou a expressão "gêmeos totalitários" para relacionar o nazismo ao stalinismo.[63][64][65]

Pipes e Malia continuaram retratando os desenvolvimentos ideológicos como os fundamentos do comunismo e, consequentemente, do totalitarismo. Traçaram uma linha que partia do utopismo e da Revolução Francesa — comparada por Pipes a um "vírus" — e chegava a Lenin. Para descrever a natureza do totalitarismo, utilizaram o conceito de ideocracia. Furet e Ernst Nolte, historiador elogiado pelo primeiro, também identificaram o antifascismo como uma forma de totalitarismo comunista. Nolte apresentou o conflito entre os totalitarismos como uma "Guerra Civil Europeia", afirmando que ele teria sido iniciado pelo bolchevismo e produzido o nazismo, um "bolchevismo invertido". Dessa forma, interpretou o nazismo apenas como uma reação à ameaça bolchevique e descreveu o Holocausto e a Operação Barbarossa como "simultaneamente uma retaliação e uma medida preventiva" contra o bolchevismo.

Outra obra importante do mesmo período foi O Livro Negro do Comunismo (1997). Seu organizador, Stéphane Courtois, ressaltou a homologia estrutural dos sistemas totalitários, supostamente manifestada na equivalência entre o "genocídio de classe" do comunismo e o "genocídio racial" do nazismo, e concluiu que o comunismo havia sido mais mortífero do que o nazismo[9][66] ou qualquer outra ideologia, com base na contabilização e na soma do número de vítimas atribuíveis aos Estados comunistas e, assim, ao comunismo em geral. Essa conclusão provocou na França um debate emocional sobre se o comunismo deveria ser tratado como um fenômeno único e unificado e se uma "condenação indiscriminada" do comunismo como ideologia seria justificável.[67]

Embora Nolte e os historiadores que o apoiavam não tenham prevalecido no Historikerstreit, sua influência sobre Furet e sobre historiadores de fora da Alemanha legitimou suas ideias, que retornaram posteriormente ao país sob outras formas, contribuindo para o ressurgimento do conceito de totalitarismo na Alemanha. O conceito também ingressou na historiografia da Europa Oriental e dos antigos países do Bloco de Leste, onde passou a descrever não apenas o stalinismo, mas todo o projeto comunista.[61] Esse processo ocorreu juntamente com a chamada "teoria do duplo genocídio", uma forma de banalização do Holocausto que reuniu a violência nazista e a stalinista em uma única metanarrativa e se tornou uma estrutura interpretativa influente.[67]

A interpretação totalitária de Furet sobre a Revolução Francesa, dirigida contra a interpretação clássica "marxista" ou "jacobina", provocou debates com historiadores como Michel Vovelle, que liderou novos estudos sobre o tema. Como Eric Hobsbawm concluiu em 2007, "a Revolução de Furet" havia "chegado ao fim".[68]

Sobre as ideias de Furet a respeito do século XX, Hobsbawm escreveu que "[o nazismo e o stalinismo] derivavam funcionalmente, e não ideologicamente [...] Furet, como destacado historiador das ideias, sabe que eles pertenciam a famílias taxonômicas diferentes, embora estruturalmente convergentes". Em oposição à concepção do antifascismo como um disfarce do stalinismo, Hobsbawm atribuiu à "aliança" entre o liberalismo e o comunismo a capacidade de permitir que o capitalismo superasse sua crise e escreveu que a obra de Furet "parece um produto tardio da era da Guerra Fria".[69][70]

Os historiadores Enzo Traverso e Arno Mayer, assim como o autor Domenico Losurdo, aceitaram o conceito de Nolte de uma "Guerra Civil Europeia", embora situassem seu início em 1914 e o interpretassem de maneira diferente, não como uma luta entre dois totalitarismos.[71]

Michael Parenti (1997) e James Petras (1999) sugeriram que o conceito de totalitarismo foi empregado politicamente para fins anticomunistas. Parenti também analisou como os "anticomunistas de esquerda" atacaram a União Soviética durante a Guerra Fria.[72] Segundo Petras, a CIA financiou o Congresso pela Liberdade da Cultura para atacar o "antitotalitarismo stalinista".[73]

De acordo com alguns estudiosos e autores, como Domenico Losurdo, classificar Josef Stalin como "totalitário", em vez de "autoritário", seria uma justificativa aparentemente sofisticada, mas enganosa, dos interesses ocidentais. Da mesma forma, a alegação contrária de que o conceito de totalitarismo teria sido refutado também poderia constituir uma justificativa aparentemente sofisticada, mas enganosa, dos interesses russos. Para Losurdo, totalitarismo é um conceito polissêmico com origem na teologia cristã. Sua aplicação à esfera política exige uma operação de esquematização abstrata que utiliza elementos isolados da realidade histórica para colocar os regimes fascistas e a União Soviética conjuntamente no banco dos réus, servindo mais ao anticomunismo dos intelectuais da Guerra Fria do que à pesquisa intelectual.[74]

Após a década de 1990

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Após a década de 1990, continuaram as críticas ao totalitarismo como conceito histórico e instrumento de análise. Embora esses críticos defendessem sua exclusão do meio acadêmico, reconheciam sua legitimidade fora dele.[9] Hans Mommsen criticou-o como "um conceito descritivo, e não uma teoria", com "pouco ou nenhum poder explicativo": "A base da comparação, porém, é superficial e limita-se em grande parte ao aparato de dominação." Ainda assim, escreveu que "o conceito de totalitarismo permite a análise comparativa de diversas técnicas e instrumentos de dominação, e isso também deve ser considerado legítimo em si mesmo", além de admitir sua legitimidade no "uso não acadêmico".[10]

Enzo Traverso, em seu ensaio "Totalitarianism Between History and Theory" (2017), classifica o termo como "simultaneamente inútil e insubstituível" para a ciência política e para a história acadêmica. Ele cita Franz Neumann, que o descreveu como um "tipo ideal" weberiano, isto é, uma abstração inexistente na realidade, em oposição à totalidade concreta da história. Traverso considera que o termo é empregado de forma pejorativa na ciência política e na propaganda ocidentais, mas reconhece sua legitimidade como forma de conservar a experiência coletiva traumática da violência estatal do século XX:

Assim, embora o conceito de totalitarismo continue a ser criticado por suas ambiguidades, fragilidades e abusos, provavelmente não será abandonado. Além de constituir uma bandeira ocidental, ele preserva a memória de um século que conheceu Auschwitz e Kolyma, os campos de extermínio do nazismo, os gulags stalinistas e os campos de extermínio de Pol Pot. Nisso reside sua legitimidade, que não necessita de reconhecimento acadêmico.[9]

No ensaio "Totalitarianism: Defunct Theory, Useful Word" (2010), o historiador John Connelly afirmou que totalitarismo é uma palavra útil, mas que a antiga teoria do totalitarismo formulada na década de 1950 está obsoleta entre os estudiosos:

"A palavra é tão funcional atualmente quanto era cinquenta anos atrás. Ela designa o tipo de regime que existiu na Alemanha Nazista, na União Soviética, nos Estados satélites soviéticos, na China comunista e talvez na Itália Fascista, onde a palavra se originou.... Quem somos nós para dizer a Václav Havel ou a Adam Michnik que eles estavam enganando a si próprios quando consideravam seus governantes totalitários? Ou, ainda, aos milhões de antigos súditos de governos do tipo soviético que utilizam os equivalentes locais da palavra tcheca totalita para descrever os sistemas sob os quais viveram antes de 1989? [Totalitarismo] é uma palavra útil, e todos sabem o que ela significa como referência geral. Os problemas surgem quando as pessoas confundem o termo descritivo útil com a antiga 'teoria' da década de 1950."[75]

Política

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Primeiros usos

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Autodesignação das autocracias

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O termo "totalitário" foi utilizado por líderes e altos funcionários de ditaduras e autocracias de direita e extrema direita estabelecidas durante o período entreguerras e a Segunda Guerra Mundial para descrever seus próprios regimes — sobretudo por Benito Mussolini, da Itália Fascista. Entre a União Soviética (URSS), a Alemanha Nazista e a Itália Fascista, o termo tornou-se uma autodesignação oficial apenas no caso da Itália Fascista; também foi utilizado na Alemanha Nazista, embora em menor grau, e não foi empregado pela URSS. Esse padrão foi posteriormente invertido pelos teóricos do totalitarismo, que passaram a considerar a URSS um de seus principais exemplos. Portanto, o significado do termo nas autodesignações fascistas era diferente das interpretações surgidas após a Segunda Guerra Mundial.[76]

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Fachada do Palazzo Braschi, em Roma, em 1934, com o rosto de Il Duce Benito Mussolini. Como líder da Itália Fascista entre 1922 e 1943, Mussolini e seus ideólogos utilizaram o termo "totalitário" para caracterizar seu governo.

Em 1923, no início do governo de Mussolini — 1922–1943 —, o acadêmico antifascista Giovanni Amendola definiu e descreveu o totalitarismo como uma forma de governo na qual um líder supremo exerce pessoalmente o poder total — político, militar, econômico e social — como o Il Duce do Estado. O fascismo italiano era um sistema político dotado de uma cosmovisão ideológica e utópica, diferente da política realista de uma ditadura pessoal, que conserva o poder pela própria finalidade de conservá-lo.[5]

O termo "totalitário" passou a ser utilizado pelos próprios fascistas italianos. Posteriormente, o teórico do fascismo italiano Giovanni Gentile atribuiu significados politicamente positivos aos termos totalitarismo e totalitário em defesa da engenharia social legal, ilegal e legalista da Itália realizada pelo Duce Mussolini. Como ideólogos, o intelectual Gentile e o político Mussolini utilizaram o termo totalitario para identificar e descrever a natureza ideológica das estruturas sociais italianas e os objetivos econômicos, geopolíticos e sociais concretos da nova Itália Fascista, que constituía a "representação total da nação e a orientação total dos objetivos nacionais".[77]

Ao propor a sociedade totalitária do fascismo italiano, Gentile descreveu uma sociedade civil na qual a ideologia totalitária — isto é, a submissão ao Estado — determinava a esfera pública e a esfera privada da nação italiana.[26] Para alcançar uma utopia fascista, o totalitarismo italiano precisava politizar a existência humana e submetê-la ao Estado, ideia resumida por Mussolini na máxima: "Tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado."[5][78]

Hannah Arendt, em seu livro As Origens do Totalitarismo, sustentou que a ditadura de Mussolini não foi um regime totalitário até 1938.[79] Ao argumentar que uma das características fundamentais de um movimento totalitário era sua capacidade de promover a mobilização das massas, Arendt escreveu:

"Embora todos os grupos políticos dependam de uma força proporcional, os movimentos totalitários dependem da simples força dos números a tal ponto que os regimes totalitários parecem impossíveis, mesmo em circunstâncias que lhes sejam favoráveis, em países com populações relativamente pequenas.... [A]té mesmo Mussolini, que tanto apreciava o termo 'Estado totalitário', não tentou estabelecer um regime totalitário plenamente desenvolvido e contentou-se com a ditadura e o governo de partido único."[80]

Por exemplo, Vítor Emanuel III continuou reinando como chefe de Estado meramente nominal e desempenhou um papel na destituição de Mussolini, em 1943. Além disso, a Igreja Católica pôde exercer de forma independente sua autoridade religiosa no Vaticano, nos termos do Tratado de Latrão de 1929, sob a liderança dos papas Pio XI — 1922–1939 — e Pio XII — 1939–1958.

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Imagem de propaganda de 1937 com Francisco Franco e seu lema Una patria! Un estado! Un caudillo! — "Uma pátria! Um Estado! Um caudilho!" —, semelhante ao lema nazista Ein Volk, ein Reich, ein Führer. Durante a Guerra Civil Espanhola, Franco proclamou que seu Estado espanhol seria inspirado em "outros países de regimes totalitários", isto é, a Alemanha Nazista e a Itália Fascista.

Quando o Partido Nazista chegou ao poder, em 1933, começou a utilizar o conceito de Estado totalitário difundido por Mussolini e Carl Schmitt para caracterizar seu regime ideal. Joseph Goebbels declarou em um discurso de 1933: "Nosso partido sempre aspirou ao Estado totalitário. [...] O objetivo da revolução [nacional-socialista] deve ser um Estado totalitário que penetre em todas as esferas da vida pública."[37] O conceito de totalitarismo, entretanto, recebeu menor destaque entre os ideólogos nazistas, que preferiam o termo Volksstaat — "Estado do povo" ou "Estado racial" — para descrever o regime.[9]

José María Gil-Robles, líder da Confederação Espanhola de Direitas Autônomas (CEDA),[81] declarou sua intenção de "dar à Espanha uma verdadeira unidade, um novo espírito, uma organização política totalitária". Em seguida, afirmou: "A democracia não é um fim, mas um meio para a conquista do novo Estado. Quando chegar o momento, ou o Parlamento se submeterá, ou nós o eliminaremos."[82] O general Francisco Franco estava determinado a impedir o crescimento de partidos de direita concorrentes na Espanha, e a CEDA foi dissolvida em abril de 1937. Posteriormente, Gil-Robles partiu para o exílio.[83]

Franco começou a aplicar o termo "totalitário" a seu regime durante a Guerra Civil Espanhola — 1936–1939. Em 1.º de outubro de 1936, anunciou a intenção de organizar a Espanha "dentro de um amplo conceito totalitário de unidade e continuidade". A aplicação prática dessa ideia começou com a unificação forçada de todos os partidos da zona nacionalista na FET y de las JONS, o único partido governante do novo Estado. Posteriormente, Franco e seus ideólogos enfatizaram a natureza igualmente "missionária e totalitária" do Estado em construção em comparação com a Alemanha Nazista e a Itália Fascista, e o totalitarismo foi descrito como uma forma de governo essencialmente espanhola. Em dezembro de 1942, conforme avançava a Segunda Guerra Mundial, Franco deixou de utilizar o termo, que adquiriu uma conotação negativa quando ele passou a defender a luta contra o "totalitarismo bolchevique".[37][84]

Ioánnis Metaxás, líder do Regime de 4 de Agosto na Grécia, que recebeu alguma inspiração do fascismo, escreveu em seu diário que havia estabelecido "um Estado anticomunista e antiparlamentar, um Estado totalitário, um Estado baseado na agricultura e no trabalho e, portanto, antiplutocrático". Após as invasões italiana e alemã da Grécia, escreveu que "ao derrotarem a Grécia, eles derrotavam aquilo que sua bandeira representava".[85] Embora Metaxás não tenha criado um Estado de partido único, acreditava que todo o povo grego — a própria nação — constituía esse partido, com a exclusão de quaisquer comunistas, reacionários ou democratas, reais ou hipotéticos.[86]

Ion Antonescu, ditador do Reino da Romênia alinhado às Potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, descreveu seu regime como "etnocrático", "étnico-cristão" e como "o regime nacional-totalitário, o regime da restauração nacional e social", dedicado à ideologia de um nacionalismo romeno extremado e à herança romena. O regime promulgou leis antissemitas e racistas e participou ativamente do Holocausto. Entretanto, em 1941, Antonescu dissolveu o partido governante, a Guarda de Ferro, denunciou seus métodos terroristas e continuou governando sem um sistema de partido único. Durante sua existência, o regime também poupou metade dos judeus residentes na Romênia.[87][88]

Em 1940, o então ministro das Relações Exteriores do Império do Japão, Yosuke Matsuoka, expressou em uma entrevista os pressupostos ideológicos predominantes no governo estatista do período Shōwa: "Na batalha entre a democracia e o totalitarismo, este último adversário vencerá sem dúvida e controlará o mundo. A era da democracia terminou, e o sistema democrático está falido.... O fascismo se desenvolverá no Japão pela vontade do povo. Surgirá do amor pelo imperador."[89]

Um documento produzido pelo conselho de planejamento do gabinete governamental afirmava que, "desde a fundação de nosso país, o Japão possui um totalitarismo sem paralelo.... Um totalitarismo ideal manifesta-se em nossa organização política nacional.... O totalitarismo alemão existe há apenas oito anos, mas o [totalitarismo] japonês brilha através de três mil anos de tradição imemorial".[90]

Críticas e análises

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Leon Trótski formulou um conceito de totalitarismo em sua análise da URSS na década de 1930.

No período entreguerras, o totalitarismo surgiu como um termo utilizado para criticar e analisar as ditaduras da época. Foi empregado para descrever o fascismo e posteriormente tornou-se uma base para a comparação entre os Estados fascistas e a União Soviética; não era entendido como elemento de uma dicotomia entre liberalismo e totalitarismo nem como o inverso da democracia liberal.[9]

Na década de 1930, críticos de esquerda do stalinismo começaram a aplicar o termo ao Estado soviético e a compará-lo com os Estados fascistas. Leon Trótski foi um dos primeiros a fazê-lo,[91] produzindo talvez o exemplo mais conhecido desse uso por um dissidente antiestalinista de esquerda.[92]

O primeiro a direcionar o termo à URSS foi o escritor e ativista de esquerda Victor Serge, que o fez pouco antes de sua prisão, em uma carta publicada na França. Ainda naquele ano,[qual?] Trótski comparou as burocracias fascista e soviética, descrevendo ambas como parasitárias, e posteriormente afirmou que "no último período, a burocracia soviética familiarizou-se com muitas características do fascismo vitorioso, sobretudo ao livrar-se do controle do partido e estabelecer o culto ao líder".

Em A Revolução Traída (1936), Trótski utilizou o termo "totalitário" para analisar a URSS, atribuindo ao totalitarismo — enraizado na "lentidão do proletariado mundial em resolver os problemas que lhe foram impostos pela história" — características como a concentração do poder nas mãos de um único indivíduo, a abolição do controle popular sobre a liderança, o emprego de repressão extrema e a eliminação de centros de poder concorrentes. Posteriormente, incluiu "a supressão de toda liberdade de crítica; a submissão dos acusados aos militares; o juiz de instrução, o promotor e o juiz reunidos em uma única pessoa; uma imprensa monolítica cujos gritos aterrorizam o acusado e hipnotizam a opinião pública".

Trótski escreveu que a URSS "havia se tornado totalitária" em caráter vários anos antes de a palavra chegar da Alemanha. Seu conceito, entretanto, era muito menos definido que os dos teóricos da Guerra Fria, e ele teria discordado de seus pontos fundamentais — por exemplo, da afirmação de que o "controle e a direção centrais de toda a economia" também se aplicavam ao fascismo. Trótski também teria rejeitado a tendência desses teóricos de representar as sociedades totalitárias como politicamente monolíticas e inerentemente estáticas, assim como sua perspectiva anticomunista e sua descrição de Lenin como um ditador totalitário.[93] Estudiosos argumentaram que, para Trótski, totalitarismo era um termo pejorativo, e não um conceito sociológico baseado na equiparação entre fascismo e socialismo, como ocorria entre os teóricos da Guerra Fria.[94]

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Ilustração satírica de 1938 intitulada "Carriers of the New Black Plague", de William Cotton; a legenda menciona um "eclipse totalitário" que ameaçava a democracia

Um dos primeiros usos de totalitarismo em inglês foi feito pelo escritor austríaco Franz Borkenau em seu livro de 1938, The Communist International, no qual afirmou que o conceito unia as ditaduras soviética e alemã mais do que as separava.[95]

A Alemanha Nazista foi classificada duas vezes como "totalitária" no discurso proferido por Winston Churchill em 5 de outubro de 1938 perante a Câmara dos Comuns do Reino Unido, em oposição ao Acordo de Munique, pelo qual a França e a Grã-Bretanha consentiram com a anexação da Região dos Sudetas pela Alemanha Nazista.[96] Na época, Churchill era um deputado sem cargo governamental que representava o distrito eleitoral de Epping. Em um pronunciamento radiofônico realizado duas semanas depois, Churchill voltou a empregar o termo, dessa vez aplicando o conceito a "uma tirania comunista ou nazista".[97]

O conceito adquiriu legitimidade em 1939, com o Pacto Molotov-Ribbentrop. Depois disso, tornou-se aceito, pelo menos até 1941, apresentar Stalin e Hitler como "ditadores gêmeos" e chamar o nazismo de "bolchevismo marrom" e o stalinismo de "fascismo vermelho". No mesmo ano, estudiosos de diversas disciplinas realizaram na Filadélfia o primeiro simpósio internacional sobre o totalitarismo.[98][22]

O conceito foi abandonado em 1941, quando o Terceiro Reich invadiu a URSS, e esta passou a ser apresentada pela propaganda ocidental como uma aliada "valente e amante da liberdade" na guerra.[23] Entre as principais produções da propaganda ocidental pró-stalinista estava o filme Mission to Moscow (1943), baseado no livro homônimo de 1941.[28]

Após a Segunda Guerra Mundial, em uma série de palestras de 1945 e em um livro de 1946 intitulados The Soviet Impact on the Western World, o historiador britânico E. H. Carr sustentou que "a tendência de afastamento do individualismo em direção ao totalitarismo [era] inconfundível em toda parte" nos países da Eurásia que então passavam pela descolonização. Carr observou que o marxismo-leninismo revolucionário era a forma mais bem-sucedida de totalitarismo, conforme demonstrado pela rápida industrialização revolucionária da URSS — 1929–1941 — e pela Grande Guerra Patriótica — 1941–1945 —, que derrotou a Alemanha Nazista.

Apesar dessas realizações na engenharia social e na guerra, ao tratar dos países do bloco comunista, somente um ideólogo "cego e incurável" poderia ignorar a tendência dos regimes comunistas em direção ao totalitarismo de Estado policial.[99]

Politicamente amadurecido por ter combatido, sido ferido e sobrevivido à Guerra Civil Espanhola, o socialista democrático George Orwell escreveu no ensaio "Why I Write" (1946): "A Guerra Civil Espanhola e outros acontecimentos de 1936–1937 fizeram a balança pender, e, a partir de então, eu soube qual era minha posição. Todas as linhas de trabalho sério que escrevi desde 1936 foram escritas, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, tal como o compreendo." Orwell argumentou que os futuros regimes totalitários espionariam suas sociedades e utilizariam os meios de comunicação de massa para perpetuar suas ditaduras, e que, "se você deseja uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando um rosto humano — para sempre".[100]

Guerra Fria

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Antitotalitária: Hannah Arendt contrariou os kremlinólogos defensores do "modelo totalitário", que procuravam apropriar-se da tese de As Origens do Totalitarismo (1951) para utilizá-la como propaganda anticomunista americana, segundo a qual todos os Estados do Pacto de Varsóvia seguiam o modelo totalitário.

Em As Origens do Totalitarismo (1951), a teórica política Hannah Arendt escreveu que, em seu surgimento no início do século XX, o nazismo corporativista e o comunismo soviético eram formas inéditas de governo, e não versões atualizadas das antigas tiranias das ditaduras militares ou corporativas. Ela argumentou que o conforto emocional proporcionado pela certeza política era a origem do apelo de massa dos regimes totalitários revolucionários, pois a cosmovisão totalitária oferecia respostas definitivas e psicologicamente reconfortantes aos complexos mistérios sociopolíticos do passado, do presente e do futuro.

Assim, o nazismo propunha que toda a história era a história do conflito étnico, da sobrevivência da raça mais apta. Em contraste, o marxismo-leninismo propunha que toda a história era a história da luta de classes, da sobrevivência da classe social mais apta. Depois que os adeptos aceitavam a aplicabilidade universal da ideologia totalitária, o revolucionário nazista e o revolucionário comunista passavam a possuir uma certeza moral simplista com a qual justificavam todas as demais ações do Estado, seja por meio de um apelo ao historicismo, seja por um apelo à natureza, como medidas convenientes e necessárias ao estabelecimento de um aparelho estatal autoritário.[101]

Crença verdadeira

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Em The True Believer (1951), Eric Hoffer escreveu que movimentos políticos de massa, como o fascismo italiano — 1922–1943 —, o nazismo alemão — 1933–1945 — e o stalinismo russo — 1929–1953 —, apresentavam em comum a prática política de retratar suas sociedades totalitárias como culturalmente superiores às sociedades moralmente decadentes dos países democráticos da Europa Ocidental. Essa psicologia das massas indica que participar e ingressar em um movimento político de massa oferece aos indivíduos a perspectiva de um futuro glorioso, e que a integração a essa comunidade constitui um refúgio emocional para aqueles com poucas realizações concretas na vida. O "verdadeiro crente", portanto, é assimilado a um corpo coletivo formado por outros crentes verdadeiros, que ficam psicologicamente protegidos por "anteparos impermeáveis aos fatos, que os isolam da realidade", derivados dos textos oficiais da ideologia totalitária.[102]

Colaboracionismo

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Em um artigo de 2018 intitulado "European Protestants Between Anti-Communism and Anti-Totalitarianism: The Other Interwar Kulturkampf?", o historiador Paul Hanebrink escreveu que a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, levou integrantes do Movimento Cristão Alemão ao anticomunismo, pois, para os cristãos europeus — católicos e protestantes —, a guerra cultural consolidou-se como uma luta contra o comunismo. Durante todo o período entreguerras europeu — 1918–1939 —, os regimes totalitários de direita doutrinaram cristãos para que demonizassem o regime comunista da Rússia como a apoteose do materialismo secular e como uma ameaça militarizada à ordem social e moral cristã em todo o mundo.[103] Em toda a Europa, cristãos que se tornaram totalitários anticomunistas consideravam o comunismo e os governos comunistas ameaças existenciais à ordem moral de suas respectivas sociedades e colaboraram com a liderança nazista e com outros fascistas, na esperança de que o anticomunismo restaurasse as sociedades europeias a uma forma de Cristandade.[104]

Modelo totalitário

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No fim da década de 1950, os termos totalitarismo, totalitário e "modelo totalitário", provenientes da obra Totalitarian Dictatorship and Autocracy (1956), de Carl Joachim Friedrich e Zbigniew Brzezinski, tornaram-se comuns na geopolítica e na política externa dos Estados Unidos. O "modelo totalitário" tornou-se um paradigma fundamental da kremlinologia — o estudo do Estado policial da URSS. Os kremlinólogos analisavam a política interna — as políticas e as personalidades — do Politburo do Partido Comunista da União Soviética para formular políticas nacionais e externas, fornecendo informações estratégicas sobre a URSS. Os Estados Unidos também utilizaram o modelo para abordar regimes fascistas, como as repúblicas das bananas.[105] Como cientistas políticos anticomunistas, Friedrich e Brzezinski descreveram o totalitarismo por meio de um modelo composto por seis características interligadas que se sustentavam mutuamente:[106]

  1. Uma ideologia orientadora elaborada;
  2. Um Estado de partido único;
  3. O emprego do terrorismo de Estado;
  4. O monopólio do controle das armas;
  5. O monopólio do controle dos meios de comunicação de massa;
  6. Uma economia planificada, dirigida e controlada centralmente.

Críticas e evolução do modelo totalitário

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O cientista político americano Zbigniew Brzezinski popularizou o combate ao totalitarismo de esquerda na política externa dos Estados Unidos[75] e exerceu o cargo de conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter.[28]

Como historiadores tradicionalistas, Friedrich e Brzezinski argumentaram que os regimes totalitários da URSS — estabelecido em 1917 —, da Itália Fascista — 1922–1943 — e da Alemanha Nazista — 1933–1945 — tiveram origem no descontentamento político provocado pelas consequências socioeconômicas da Primeira Guerra Mundial — 1914–1918 —, que tornaram o governo da República de Weimar — 1918–1933 — incapaz de resistir e reprimir os sentimentos e as ações extremistas de grupos favoráveis ao totalitarismo.[107]

Historiadores revisionistas criticaram o modelo totalitário por sua incapacidade de descrever plenamente a história soviética e russa. Eles argumentaram que Friedrich e Brzezinski negligenciaram a maneira como o sistema social soviético funcionava tanto como entidade política — a URSS — quanto como entidade social — a sociedade civil soviética. Esse sistema social poderia ser compreendido por meio das lutas de classes socialistas entre as elites profissionais — políticas, acadêmicas, artísticas, científicas e militares — que procuravam ascender à nomenklatura, a classe dominante.

Os revisionistas observaram que a economia política do Politburo permitia que parte do poder executivo fosse delegada às autoridades regionais para a aplicação das políticas. Consideraram isso uma evidência de que um regime totalitário adaptava sua economia às novas exigências da sociedade civil. Os historiadores tradicionalistas, entretanto, interpretaram o colapso político e econômico da URSS como uma demonstração do fracasso do sistema econômico totalitário, pois o Politburo não incorporou uma verdadeira participação popular na economia.[108]

O historiador da Alemanha Nazista Karl Dietrich Bracher observou que a "tipologia totalitária" desenvolvida por Friedrich e Brzezinski era inflexível, pois não incluía a dinâmica revolucionária de pessoas belicosas empenhadas em realizar a revolução violenta necessária para estabelecer o totalitarismo em um Estado soberano.[109] Bracher argumentou que a essência do totalitarismo era o controle total destinado a transformar todos os aspectos da sociedade civil por meio de uma ideologia universal — interpretada por um líder autoritário —, criando uma identidade nacional coletiva mediante a incorporação da sociedade civil ao Estado.[109]

Considerando que os líderes supremos dos Estados totais comunistas, fascistas e nazistas possuíam administradores governamentais, Bracher sustentou que um governo totalitário não necessitava obrigatoriamente de um líder supremo efetivo e poderia funcionar por meio de uma liderança coletiva. O historiador americano Walter Laqueur concordou que a tipologia totalitária de Bracher descrevia com maior precisão a realidade funcional do Politburo do que a tipologia proposta por Friedrich e Brzezinski.[110]

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O Iraque Baathista, sob Saddam Hussein, era um Estado totalitário.[111][112][113]
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Dinastia de totalitários: a Síria Baathista foi governada pelas ditaduras sucessivas de Hafez al-Assad — 1971–2000 — e de seu filho Bashar al-Assad — 2000–2024 — desde o período final da Guerra Fria, na década de 1970,[114][115][116] até 2024.[117]

Em Democracy and Totalitarianism (1968), o cientista político Raymond Aron escreveu que um regime poderia ser considerado totalitário quando apresentasse cinco características que se sustentavam mutuamente:

  1. Um Estado de partido único, no qual o partido governante possui o monopólio de toda a atividade política;
  2. Uma ideologia estatal defendida pelo partido governante e reconhecida oficialmente como a única autoridade;
  3. Um monopólio estatal da informação, com o controle dos meios de comunicação de massa para transmitir a verdade oficial;
  4. Uma economia controlada pelo Estado, na qual as principais entidades econômicas estão sob controle estatal;
  5. Uma organização de terror ideológico própria de um Estado policial e a criminalização das atividades políticas, econômicas e profissionais.[118]

Em uma resenha de 1980 de How the Soviet Union is Governed (1979), de Jerry F. Hough e Merle Fainsod, o estudioso do autoritarismo William Zimmerman escreveu:

"A União Soviética mudou substancialmente. Nosso conhecimento sobre a União Soviética também mudou. Todos sabemos que o paradigma tradicional [do modelo totalitário] já não satisfaz [nossa ignorância], apesar de diversas tentativas, principalmente no início da década de 1960 — a sociedade dirigida, o totalitarismo sem terror policial e o sistema de conscrição —, de formular uma variante aceitável [do totalitarismo comunista]. Percebemos que os modelos que constituíam, na realidade, derivações dos modelos totalitários não oferecem boas aproximações da realidade pós-stalinista [da URSS]."[119]

Em uma resenha da obra Totalitarian Space and the Destruction of Aura (2019), de Saladdin Ahmed, Michael Scott Christofferson escreveu que a interpretação de Hannah Arendt sobre a URSS após Stalin foi uma tentativa de distanciar intelectualmente seu trabalho do "uso indevido do conceito [das origens do totalitarismo] durante a Guerra Fria" como propaganda anticomunista.[120]

Kremlinologia

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Durante a Guerra Fria — 1945–1989 —, o campo acadêmico da kremlinologia, dedicado à análise das políticas e da política interna do Politburo do Partido Comunista da União Soviética, produziu análises históricas e políticas dominadas pelo modelo totalitário da URSS como um Estado policial controlado pelo poder absoluto do líder supremo Stalin, que chefiava uma hierarquia governamental monolítica e centralizada.[121]

O estudo da política interna do Politburo e da formulação de políticas no Kremlin produziu duas escolas historiográficas da Guerra Fria: a kremlinologia tradicionalista e a kremlinologia revisionista. Os kremlinólogos tradicionalistas trabalharam com o modelo totalitário e em favor dele, produzindo interpretações da política e das políticas do Kremlin que sustentavam a representação da Rússia comunista como um Estado policial. Os kremlinólogos revisionistas apresentaram interpretações alternativas da política do Kremlin e relataram os efeitos das políticas do Politburo sobre a sociedade soviética, tanto civil quanto militar.

Apesar das limitações da historiografia do Estado policial, os kremlinólogos revisionistas argumentaram que a antiga imagem da Rússia stalinista da década de 1950 — um Estado totalitário empenhado em dominar o mundo — era excessivamente simplificada e imprecisa, uma vez que a morte de Stalin havia transformado a sociedade soviética.[49] Após a Guerra Fria e a dissolução do Pacto de Varsóvia, a maioria dos kremlinólogos revisionistas passou a trabalhar nos arquivos nacionais dos Estados pós-comunistas, especialmente no Arquivo Estatal da Federação Russa, sobre a Rússia do período soviético.[122][123]

O modelo totalitário como política oficial

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Na década de 1950, o cientista político Carl Joachim Friedrich argumentou que Estados comunistas, como a Rússia Soviética e a China Vermelha, eram países sistematicamente controlados por um líder supremo que utilizava cinco características do modelo totalitário:

Na década de 1960, os kremlinólogos revisionistas pesquisaram as organizações comunistas e as burocracias relativamente autônomas que influenciavam a formulação das políticas de alto nível do governo soviético.[122]

Kremlinólogos revisionistas como J. Arch Getty e Lynne Viola superaram as limitações interpretativas do modelo totalitário ao reconhecerem e relatarem que o governo soviético, sua liderança partidária e a sociedade civil da URSS haviam mudado profundamente após a morte de Stalin. A história social revisionista indicava que as forças sociais da sociedade soviética haviam obrigado o governo da URSS a ajustar a política pública a uma verdadeira economia política, formada por gerações anteriores e posteriores à guerra que possuíam percepções distintas sobre a utilidade da economia comunista.[49] Desse modo, a Rússia havia superado o modelo totalitário da URSS pós-stalinista da década de 1950, caracterizada como Estado policial.[119]

Pós-Guerra Fria

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O presidente Isaias Afewerki governa a Eritreia como ditador totalitário desde a independência do país, em 1993.[125]
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Bandeira do Estado Islâmico, um califado autoproclamado que exige a obediência religiosa, política e militar dos integrantes da comunidade muçulmana mundial.

Em Did Somebody Say Totalitarianism?: Five Interventions in the (Mis)Use of a Notion, Slavoj Žižek descreveu ironicamente o conceito de totalitarismo como um "antioxidante ideológico", semelhante ao chá verde da Celestial Seasonings que, segundo sua propaganda, "neutraliza moléculas prejudiciais no organismo conhecidas como radicais livres". Escreveu ainda que "[a] noção de 'totalitarismo', longe de constituir um conceito teórico eficaz, é uma espécie de expediente: em vez de nos permitir pensar, obrigando-nos a adquirir uma nova compreensão da realidade histórica que descreve, ela nos desobriga de pensar ou até nos impede ativamente de fazê-lo".[126]

Saladdin Ahmed critica, em Totalitarian Space and the Destruction of Aura (2019), o conceito de totalitarismo formulado por Brzezinski e Friedrich e, em menor grau, por Arendt, observando que suas definições se tornam inválidas quando transferidas para outros regimes. "Esse foi o caso do Chile do general Augusto Pinochet", escreveu, "mas seria absurdo excluí-lo da categoria dos regimes totalitários apenas por essa razão", pois, embora Pinochet não tenha adotado uma ideologia "oficial", "a hegemonia ideológica, por meio da qual a ideologia dominante é internalizada e normalizada, é muito mais eficaz do que a imposição de uma ideologia oficial".

Saladdin sustentou que, embora a ditadura de Pinochet no Chile não possuísse uma ideologia "oficial", havia um homem que governava o país "nos bastidores": "ninguém menos que Milton Friedman, o padrinho do neoliberalismo e o professor mais influente dos Chicago Boys, era conselheiro de Pinochet". Para Saladdin, uma ideologia hegemônica, mas não "oficial", constitui um meio muito mais eficaz de controle "totalitário" da sociedade do que uma ideologia oficial abertamente imposta pelo Estado. Isso seria exemplificado pela comparação entre o Chile e a Romênia de Nicolae Ceaușescu, que entrou em colapso em pouco tempo: "Ninguém os defendeu; nenhuma multidão tomou as ruas para lamentar suas mortes. A Romênia de Ceaușescu, como Estado stalinista exemplar, atendia a todos os critérios de Friedrich e Brzezinski para um Estado totalitário, mas não chegou nem perto de alcançar a dominação total".

Nesse sentido, Saladdin criticou o conceito de totalitarismo por ser aplicado apenas a "ideologias adversárias", e não ao liberalismo. Também criticou os demais critérios do totalitarismo formulados por Brzezinski, Friedrich e Arendt:

"Em suma, um regime que não satisfaça todos os critérios de Friedrich e Brzezinski não seria necessariamente não totalitário ou sequer menos totalitário, caso concordemos que o totalitarismo corresponde, em última análise, à dominação total. Na verdade, a concretização de um grau maior de dominação exigiria necessariamente a superação de cada um dos critérios de Friedrich e Brzezinski. Mesmo sem casos empíricos — que sempre podem ser descartados para preservar os critérios propostos —, poderíamos, sem grande dificuldade, imaginar um sistema que não apresente nenhum dos seis critérios e que, apesar disso, seja mais eficiente como sistema totalitário. Isso se tornará mais claro ao longo do restante deste capítulo, mas já deveria ser evidente que os pioneiros da definição de totalitarismo da Guerra Fria moldaram sua concepção com base no menos desenvolvido dos sistemas totalitários... Elaborado sob medida para o stalinismo, [o totalitarismo] pretendia predeterminar que a negação do capitalismo liberal conduziria, lógica e empiricamente, a um sistema terrível de terror total e arbitrário"; "Filosoficamente, sua descrição do totalitarismo é inválida porque estabelece 'critérios' que equivalem a uma descrição abstrata da URSS de Stalin, tornando a noção predeterminista."[120]

No início da década de 2010, Richard Shorten, Vladimir Tismăneanu e Aviezer Tucker afirmaram que as ideologias totalitárias podem assumir diferentes formas em distintos sistemas políticos, mas todas se concentram no utopismo, no cientificismo ou na violência política. Segundo eles, tanto o nazismo quanto o stalinismo enfatizavam o papel da especialização nas sociedades modernas, consideravam a polimatia algo do passado e afirmavam que suas alegações eram sustentadas pela estatística e pela ciência, o que os levou a impor regras éticas rígidas à cultura, utilizar a violência psicológica e perseguir grupos inteiros.[127][128][129]

Outros estudiosos criticaram esses argumentos por seu caráter parcial e anacrônico. Juan Francisco Fuentes considera o totalitarismo uma "tradição inventada" e acredita que a noção de "despotismo moderno" constitui um "anacronismo inverso". Para Fuentes, "o emprego anacrônico de totalitário/totalitarismo envolve a vontade de remodelar o passado à imagem e semelhança do presente".[130]

Outros estudos procuram relacionar as transformações tecnológicas modernas ao totalitarismo. Segundo Shoshana Zuboff, as pressões econômicas do moderno capitalismo de vigilância estão provocando a intensificação das conexões e do monitoramento em linha, com os espaços da vida social tornando-se saturados por agentes empresariais voltados à obtenção de lucro e/ou à regulação do comportamento.[131]

Toby Ord considerou que os temores de George Orwell acerca do totalitarismo constituíam um importante precursor das concepções modernas de risco existencial antropogênico, segundo as quais uma catástrofe futura poderia destruir permanentemente o potencial da vida inteligente originária da Terra, em parte devido às transformações tecnológicas, criando uma distopia tecnológica permanente. Ord afirmou que os escritos de Orwell demonstram que essa preocupação era genuína, e não apenas um elemento descartável do enredo fictício de 1984. Em 1949, Orwell escreveu que "[u]ma classe dominante que conseguisse proteger-se contra [quatro fontes de risco anteriormente enumeradas] permaneceria no poder para sempre".[132] No mesmo ano, Bertrand Russell escreveu que "as técnicas modernas possibilitaram uma nova intensidade de controle governamental, e essa possibilidade foi explorada de maneira muito ampla nos Estados totalitários".[133]

Em 2016, The Economist descreveu como totalitário o sistema de crédito social da China, desenvolvido durante a administração do secretário-geral do Partido Comunista da China, Xi Jinping, para avaliar e classificar os cidadãos chineses com base em seu comportamento pessoal.[134] Os opositores do sistema de classificação chinês afirmam que ele é invasivo e constitui apenas mais um instrumento que um Estado de partido único pode utilizar para controlar a população. Seus defensores afirmam que ele transformará a China em uma sociedade mais civilizada e obediente às leis.[135] Shoshana Zuboff considera o sistema instrumentarista, e não totalitário.[136]

Em Revolution and Dictatorship: The Violent Origins of Durable Authoritarianism (2022), os cientistas políticos Steven Levitsky e Lucan Way argumentaram que os regimes revolucionários emergentes geralmente se transformavam em regimes totalitários, a menos que fossem destruídos por uma invasão militar. Um regime revolucionário desse tipo tem início como uma revolução social independente das estruturas sociais existentes do Estado — e não como uma sucessão política, uma eleição para um cargo ou um golpe de Estado militar.

A União Soviética e a China maoísta, por exemplo, foram fundadas após os vários anos da Guerra Civil Russa — 1917–1922 — e da Guerra Civil Chinesa — 1927–1936 e 1945–1949 —, respectivamente, e não por uma simples sucessão estatal. Esses processos produzem ditaduras totalitárias com três características funcionais: (i) uma classe dominante coesa, formada pelas elites militares e políticas; (ii) um aparato coercivo forte e leal, composto por forças policiais e militares destinadas a reprimir a dissidência; e (iii) a destruição dos partidos políticos rivais, das organizações e dos centros independentes de poder sociopolítico.

Além disso, o funcionamento conjunto das características do totalitarismo permite que um governo totalitário sobreviva a crises econômicas internas e externas, fracassos políticos de grande escala, descontentamento social generalizado e pressões políticas de outros países.[137]

Alguns Estados totalitários de partido único foram estabelecidos por golpes organizados por oficiais militares leais a um partido de vanguarda que promovia uma revolução socialista, como a República Socialista da União da Birmânia — 1962 —,[138] a República Árabe Síria — 1963 —[139] e a República Democrática do Afeganistão — 1978.[140]

Possível surgimento futuro

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Entre as tecnologias emergentes que poderiam fortalecer futuros regimes totalitários estão a leitura cerebral e diversas aplicações da inteligência artificial.[141][142][143]

O filósofo Nick Bostrom afirmou que existe uma possível relação de compensação: alguns riscos existenciais poderiam ser atenuados pela criação de um governo mundial poderoso e permanente, mas o estabelecimento desse governo poderia, por sua vez, ampliar os riscos existenciais associados ao domínio de uma ditadura permanente.[144]

Totalitarismo religioso

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Islâmico

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Bandeira do Talibã.

O Talibã é um grupo militante e movimento político sunita e islamista de caráter totalitário no Afeganistão, surgido após a Guerra Soviético-Afegã e o fim da Guerra Fria. Governou a maior parte do Afeganistão como o Emirado Islâmico do Afeganistão, entre 1996 e 2001, e retornou ao poder em 2021, passando a controlar todo o país. Entre as características de seu governo totalitário estão a imposição da cultura Pashtunwali do grupo étnico majoritário dos pastós como lei religiosa, a exclusão das minorias e de pessoas não pertencentes ao Talibã do governo e as amplas violações dos direitos das mulheres.[145]

O Estado Islâmico é um grupo militante jihadista salafista fundado em 2006 por Abu Omar al-Baghdadi, durante a Insurgência iraquiana, sob o nome de "Estado Islâmico do Iraque". Sob a liderança de Abu Bakr al-Baghdadi, a organização posteriormente adotou, em 2013, o nome "Estado Islâmico do Iraque e do Levante". O grupo defende uma ideologia totalitária que constitui uma combinação fundamentalista do jihadismo global, do wahhabismo e do qutbismo.

Após sua expansão territorial em 2014, o grupo adotou o nome "Estado Islâmico" e declarou-se um califado[c], que procurava dominar o mundo muçulmano, estabelecendo o que foi descrito como um "regime totalitário político-religioso".

O protoestado controlou territórios significativos no Iraque e na Síria durante a Guerra Civil Iraquiana (2013–2017) e a Guerra Civil Síria, entre 2013 e 2019, sob a ditadura de seu primeiro califa, Abu Bakr al-Baghdadi, que impôs uma interpretação rigorosa da xaria.[148][149][150][151]

Críticas à classificação do islamismo como totalitarismo
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Enzo Traverso, crítico do totalitarismo como conceito teórico das ciências históricas e políticas, também critica seu emprego em relação a movimentos islamistas como o Estado Islâmico e o Talibã, assim como às formações estatais criadas por eles. Segundo Traverso, essa utilização contradiz o próprio conceito teórico de totalitarismo.

Os sistemas habitualmente descritos como totalitários, o fascismo e o comunismo, procuravam criar o "Novo Homem" de uma utopia e, por isso, projetavam-se para o futuro, em vez de tentar restaurar antigas formas de absolutismo, como observou Tzvetan Todorov: "O modernismo reacionário do terrorismo islâmico, ao contrário, emprega tecnologias modernas para retornar à pureza original de um islã mítico. Caso possua tendências utópicas, elas estão voltadas ao passado, e não ao futuro".

Além disso, o totalitarismo foi aplicado a movimentos seculares descritos como "religiões políticas" irracionais, que procuram abolir as religiões, liturgias e símbolos tradicionais e substituí-los por liturgias e símbolos próprios. O fundamentalismo islâmico, ao contrário, é uma religião politizada e uma reação à secularização e à modernização. Ademais, como forma de violência, o terrorismo costuma ser descrito como o oposto da violência estatal. Enquanto o fascismo constituiu uma reação à democracia, o islamismo surgiu em Estados autoritários, porém fracos.

"Falar em um totalitarismo 'teocrático' torna esse conceito ainda mais flexível e ambíguo do que nunca, confirmando mais uma vez sua função essencial: não interpretar criticamente a história e o mundo, mas combater um inimigo", argumentou Traverso. Ele escreveu que o termo foi adotado pela propaganda ocidental após os ataques de 11 de setembro, depois de ter sido anteriormente utilizado contra outros inimigos de acordo com os interesses geopolíticos ocidentais.

Traverso observa que o Estado islâmico que mais se aproxima do conceito de totalitarismo, a Arábia Saudita, é aliado do Ocidente e, por isso, não pode ser considerado parte do "Eixo do mal". Por essa razão, segundo ele, a Arábia Saudita raramente é descrita como "totalitária", ao contrário do Irã.[9]

A Espanha Franquista — 1936–1975 —, sob o ditador Francisco Franco, foi frequentemente caracterizada como totalitária até 1964, quando Juan José Linz contestou essa classificação e descreveu o franquismo como "autoritário", devido ao seu "grau limitado de pluralismo político", provocado pelas disputas entre as "famílias franquistas" — falangistas, carlistas e outras — no interior do único partido legal, a FET y de las JONS, e do Movimento Nacional.

Segundo Linz, outras características que justificavam essa classificação eram a ausência de uma ideologia "totalitária", pois Franco se apoiava no nacional-catolicismo e no tradicionalismo. Essa revisão provocou um grande debate; alguns críticos de Linz consideraram que seu conceito poderia constituir uma forma de absolvição do franquismo e não abrangeria sua fase inicial, frequentemente denominada "primeiro franquismo".

Os debates posteriores concentraram-se na possibilidade de o regime ser classificado como "fascista", em vez de "totalitário". Alguns historiadores destacaram suas características de ditadura militar, enquanto outros enfatizaram o componente fascista, classificando o regime como uma ditadura semifascista ou "fascistizada". Embora Enrique Moradiellos observe que "é cada vez mais raro definir o franquismo como um regime verdadeiramente fascista e totalitário", ele escreveu que os debates sobre o franquismo ainda não foram encerrados.[37] Ismael Saz observou que "também começou a ser reconhecido" que o franquismo atravessou uma fase "totalitária ou quase totalitária, fascista ou quase fascista".[76]

Os historiadores que continuam a criticar Linz e a descrever o regime como totalitário geralmente limitam essa caracterização aos primeiros dez ou vinte anos do "primeiro franquismo".[152][153][154][155]

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O ministro franquista Esteban Bilbao, à esquerda, e o arcebispo católico Enrique Pla y Deniel, ao centro, realizam a saudação romana na Catedral de Toledo, na Espanha, em março de 1942.

Linz escreveu que "o controle heterônomo do conteúdo ideológico do pensamento católico por uma Igreja universal e, especificamente, pelo Papa constitui um dos obstáculos mais sérios à criação de um sistema verdadeiramente totalitário..."[156]

O argumento de Linz foi contestado. "As referências frequentes e saturadas ao humanismo católico franquista... provenientes da teologia cristã dificilmente poderiam ocultar o fato de que o indivíduo somente era compreendido como cidadão na medida de sua adesão à comunidade católica, hierárquica e economicamente privatista que a insurreição militar havia salvado", argumentou Guillermo Portilla Contreras.[157]

Além disso, Luis Aurelio González Prieto afirmou que "os valores católicos que permeavam o substrato ideológico conservador... foram precisamente aqueles empregados pela doutrina política franquista espanhola do fim da década de 1930 e do início da década de 1940 para justificar a necessidade da constituição de um Estado totalitário a serviço da religião católica e de sua expansão".[158]

Franco era retratado como católico fervoroso e defensor intransigente do catolicismo, declarado religião oficial do Estado.[159] Os casamentos civis realizados durante a República foram declarados nulos, a menos que tivessem sido validados pela Igreja Católica, assim como os divórcios. O divórcio, a contracepção e os abortos foram proibidos.[160]

Segundo o historiador Stanley G. Payne, que se opõe à descrição do franquismo como um sistema totalitário, Franco possuía mais poder cotidiano do que Adolf Hitler ou Josef Stalin tiveram nos respectivos momentos de maior poder. Payne observou que Hitler e Stalin ao menos mantiveram parlamentos meramente ratificadores, enquanto Franco dispensou até mesmo essa formalidade durante os primeiros anos de seu governo. Segundo Payne, a ausência até de um parlamento meramente ratificador tornou o governo de Franco "o mais puramente arbitrário do mundo".[161]

Entre 1959 e 1974, entretanto, ocorreu o "Milagre econômico espanhol", sob a liderança de tecnocratas, muitos dos quais eram integrantes do Opus Dei, e de uma nova geração de políticos que substituiu a antiga guarda falangista.[162] Reformas foram implementadas na década de 1950, e a Espanha abandonou a autarquia, transferindo a autoridade econômica do movimento falangista isolacionista.[163]

Isso conduziu a um amplo crescimento econômico que perdurou até meados da década de 1970 e ficou conhecido como "milagre espanhol". O processo é comparável à desestalinização da União Soviética na década de 1950, pela qual a Espanha Franquista passou de um regime abertamente totalitário para uma ditadura autoritária com certo grau de liberdade econômica.

Ver também

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Notas e referências

Notas

  1. Mostra o estandarte do Duce em vez da bandeira nacional.
  2. Mostra a Bandeira do Sol Nascente em vez da bandeira nacional.
  3. A reivindicação do grupo "Estado Islâmico" de constituir um califado é contestada e considerada ilegal pelos estudiosos tradicionais do islã.[146][147]

Referências

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Bibliografia

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Ligações externas

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BERJAYA
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