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Carlos Ferreira de Araujo Junior (1)
Domingos Passos foi um operário brasileiro, afro-indígena, trabalhador da construção civil que se destacou como habilidoso palestrante anarquista, na década de 1920, na então capital federal Rio de Janeiro. Autodidata, Passos foi orador cativante e militante destemido, Domingos Passos suportou prisões, deportações, torturas e privações em quase dez anos de atividades anarquistas.
Não se sabe a data e o local exatos do nascimento do libertário. Pedro Catalo afirmou que Domingos Passos era neto de indígenas e teria nascido no Rio de Janeiro. Já o anarquista russo Salomão Bunin, companheiro de cela do libertário, relatou que Passos teria nascido em Minas Gerais. De acordo com as autoridades policiais que o prenderam em 1928, Domingos Passos era do Espírito Santo, agitador profissional, degenerado anarquista (2).
Além da militância sindical, Passos também fez parte de grupos teatrais e grupos anticlericais. Além disso, militou através da imprensa operária, escrevendo artigos para diversos jornais operários do país: A Plebe; Spartacus; A Vanguarda, O Syndicalista etc. Além de colaborador, Passos foi administrador do jornal O Trabalho, junto com o anarquista português Marques da Costa.
Se há um consenso entre os antigos libertários é o de que Domingos Passos foi o anarquista mais perseguido pelas autoridades do país na década de 1920, ocorrendo que “raramente chegava ao seu lar porque a polícia sempre o levava detido e onde era mantido em média por 15 a 30 dias” (3)
Domingos Passos Anarquista
Passos participou da Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro em 1918. Ocupou o cargo de secretário da União dos Operários da Construção Civil (UOCC) em 1919 e 1920. O carisma e a ousadia do libertário cresceram a partir de 1919 após o comício na Praça da República. Este evento operário evoluiu para um grande tiroterio. Da sacada e das janelas da sede da Associação dos Operários da Construção Civil, trabalhadores armados atiravam contra agentes de segurança. Três agentes ficaram feridos. Domingos Passos foi preso e acusado de ser um dos animadores do tiroteiro. Na prisão, Passos e outros libertarios presos entoaram o hino operário A Internacional por toda a madrugada. Todos foram acusados de conspiração contra a pátria, resistência a ordens legais, condutas contra a integridade da pátria e contra a forma de governo previsto na Constituição. (4)
Foi um dos delegados enviados ao Terceiro Congresso Operário Brasileiro realizado no Rio de Janeiro em 1920. Foi delegado secretário excursionista com o ovjetivo de organizar o movimento operário no Centro do país. Porém, no início de sua missão, Domingos Passos foi preso na cidade de Entre Rios. (5) Ainda em 1920, Domingos Passos participou de uma grande manifestação operária na Praça Mauá, Rio de Janeiro, em comemoração ao Primeiro de Maio daquele ano. Discursaram diversos libertários de destaques como o operário marmorista Minervino Oliveira, representante da Federação dos Trabalhadores do Rio de Janeiro. Domingos Passo falou em nome do operariado do Rio de Janeiro. (6)
Em novembro de 1920, Passos participou de uma conferência na sede da União das Costureiras e Classes Anexas, na cidade do Rio de Janeiro. A conferência foi presidida por Benedicta Bueno, Amélia Catão e Anitta Villanova. Na ocasião, Domingos Passos elogiou a agremiação das costureiras e a luta das mulheres operárias contra os preconceitos da sociedade burguesa. O libertário culpou o clero, a moral burguesa e a educação patriótica como causas dos preconceitos enfrentados pelas mulheres. Domingos Passos participou de reuniões operárias em prol da permanência da José Romero, operário deportado injustamente. (7)
No Primeiro de Maio de 1921, Passos e uma multidão de operários se dirigiram até o cemitério onde estava sepultado o operário Plácido Albuquerque, morto no ano anterior. Os operários improvisaram um comício a beira da sepultura do operário. Domingos Passos fez um discurso incendiário. O discurso atacou duramente as autoridades. A partir de então, o operário foi perseguido até ser preso meses depois. De acordo com o jornal O Combate, a prisão ocorreu por causa do discurso feito em maio. (8)
Após ser solto, Domingos Passos participou da fundação do Comitê de Socorro aos Flagelados e Famintos da Rússia juntamente com os anarquistas Astrogildo Pereira, Domingos Passos, Laura Brandão, Octávio Brandão, Cruz Júnior, Elvira Boni, Aurélio do Nascimento, Pedro Bastos, Marques da Costa, Teófilo Ferreira, entre outros.
Em 1923, Domingos Passos foi eleito secretário do comitê federal da Federação Operária do Rio de Janeiro (F.O.R.J.). Domingos Passos promoveu a reorganização da F.O.R.J, adotando os fundamentos do sindicalismo revolucionário. O libertário defendia a necessidade de articulação e formação de uma organização operária a nível federal. Domingos Passos e outros libertários, como Marques da Costa, Antônio Vaz, Rubens Wanderley e Carlos Dias, fundaram o grupo de propaganda e ações libertárias chamado Renovação.(9) O grupo proferia palestras, espetáculos e reuniões operárias com o intuito de divulgar os ideais anarquistas.
Além dos patrões, dos crumiros e das autoridades oficiais, o libertário negro também combateu as ações dos comunistas soviéticos nos sindicatos operários. Após a Revolução Russa (1917) e a fundação do Partido Comunista Brasileiro (1922) muitos militantes operários anarquistas se converteram ao comunismo soviético. Indo na contramão da onda conversora soviética, Domingos Passos intensificou ainda mais a sua militância libertária. Esta postura fez com que o libertário angariasse inimigos dentro dos sindicatos.
Passos reconhecia as qualidades morais de alguns colegas socialistas e comunistas, como Evaristo de Morais, Nicanor Nascimento e Maurício de Lacerda, mas criticava as orientações burocráticas e a tendência autoritária do PCB, citando a expulsão de Antônio Canellas do PCB por dizer verdades inconvenientes sobre a Rússia soviética .
A partir de 1924, a repressão ao anarquismo se intensificou. Neste mesmo ano, Passos e outros libertários haviam participado de um comício operário contra a carestia de vida. (10) Os anarquistas se tornaram um dos alvos da tirania de Arthur Bernardes. Diversos militantes, inimigos políticos e desafetos pessoais do presidente-tirano foram presos e deportados para territórios inóspitos, inclusive Domingos Passos. Notícias sobre a prisão de Domingos Passos chegam ao jornal libertário argentino La Protesta.
Capturado, Domingos Passos, que mal havia se recuperado de um grave acidente de trabalho que quase lhe custou a vida, (11) foi encarcerado por meses nas terríveis e subumanas celas das delegacias do Rio de Janeiro. Mesmo na prisão, Passos teve a oportuindade de conhecer anarquistas estrangeiros e nacionais. Em carta enviada a redação de O Sindicalista, no dia 14 de julho de 1924, Salomão Bunin relatou ter presenciado comovente solidariedade entre os presos como também um dos terríveis espancamentos contra Domingos Passos.
“Fizemos a comemoração da caída Bastilha, onde cantamos A Internacional e outras canções revolucionárias, onde falou o companheiro Marques da Costa, Domingos Passos, Vicente Jorca e eu, Salomão Bunin, e depois cantamos mais algumas canções o fechemos a sessão. No outro dia á meia noite, era tirado o companheiro Domingos Passos do calabouço abaixo de pau, porque não era ligeiro para vestir-se. Para onde foi? Ninguém sabe. Para o nosso calabouço não voltou.”
Em novembro de 1924, Domingos Passos e outros anarquistas foram enviados a Clevelândia do Norte, o “Inferno Verde”, dentro de um Navio-Prisão, chamado Vapor Comandante Vasconcellos. No porão dos navios, os presos eram obrigados a picarem ferrugem.A viagem serviu de funesto prelúdio do que seria Clevelândia.
Clevelândia: zona de morte
A colônia penal de Clevelândia foi um núcleo penal fundado no território do Oiapoque em plena floresta amazônica, no atual estado do Amapá.
O espaço é frequentemente comparado a um campo de concentração, para onde eram enviados os anarquistas, soldados, imigrantes, menores, mendigos e outros tipos humanos considerados “desclassificados”. Linhas de transportes marítimas foram criadas ou aproveitadas para “abastecer” Clevelândia. O lugar foi o exemplo máximo da necropolítica das oligarquias brasileiras e da autoritária república brasileira. Clevelândia funcionou como colônia penal entre 1924 e 1926. Metade dos 1600 detentos morreram num intervalo de dois anos.
O ano de 1927, em entrevista a um jornal do Rio de Janeiro, Domingos Passos relatou o que viu, viveu e sofreu em Clevelândia. A começar pela precária alimentação. Após um surto de desinteria, a comida ficou resumida a 30 gramas de feijão e carne, uma vez ao dia. Também revelou as precárias instalações do hospital local, onde os enfermos temiam a internação por conta do alto número de óbitos. Os espancamentos e ameaças eram diários e aplicados a velhos, adolescentes e enfermos. Os anarquistas eram frequentemente torturados, como, por exemplo, Antônio Salgado, professor anarquista de uma Escola Moderna em Petrópolis, posto a ferros inúmeras vezes por reclamar do tratamento desumano. Passos testemunhou o martírio de Nicolau Parada que mesmo enfermo foi obrigado a cavar inúmeras covas para enterrar os mortos de Clevelândia (12). Nicolau Parada morreu em Clevelândia.
As notícias dos horrores de Clevelândia foram divulgadas em outros países. O jornal libertário La Protesta, da Argentina, dedicou ao menos 3 números sobre o lugar, chegando a noticiar a morte de Domingos Passos no local, informação depois retificada.
Domingos Passos foi um dos sobreviventes de Clevelândia. Ele conseguiu escapar dias após ser despejado na prisão. Por semanas, mesmo doente, cansado e faminto, Passos atravessou matas fechadas, rios e mangues, sem nunca ter estado aí. Chegando em Saint George, na Guiana Francesa, Passos e outros fugitivos conseguiram auxílio de um popular. Passos conseguiu um emprego, mas após cair enfermo foi demitido. Dias depois, Passos se mudou para Caiena e depois para Belém do Pará, onde passou um período com os libertários da capital. De Belém, Passos conseguiu enviar cartas para os seus companheiros do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Porto Alegre. O jornal O Syndicalista publicou uma destas cartas em 01 de maio de 1926.
Em 1927, Domingos Passos e outros 71 sobreviventes de Clevelândia chegaram ao Rio de Janeiro, na terceira classe do navio Manaos. Os sobreviventes chegaram desnutridos, desidratados, doentes e com os corpos cobertos de úlceras. Passos relatou que, já no convés do navio, muitas mães, esposas e irmãs procuravam desesperadamente por seus esposos, irmãos e filhos após anos sem notícias. Os sobreviventes evitavam dar a triste notícia. Pouco a pouco, porém, após muita insistência e angústia, as famílias foram sendo informadas que os seus entes queridos morreram em Clevelândia. As cenas seguintes foram de choros, gritos, desmaios e correrias, e comoveram até os mais fortes.
No Rio de Janeiro, o libertário retomou a luta libertária. Já em fevereiro de 1927, Passos publica um artigo convocando operários a retomarem a luta através da ação direta (13). Em maio de 1927, Domingos Passos participa das comemorações do Primeiro de Maio no Rio de Janeiro (14). Por fim, no início de 1928, Domingos Passos participou do IV Congresso Operário do Rio Grande do Sul, ocorrido entre os dias 2 e 3 de janeiro, na cidade de Pelotas, como delegado representante dos operários de São Paulo. No seu discurso, Passos defendeu o legado da COB e seus três congresso operários, como também propôs uma reorganização da Confederação Operária Brasileira.
Desaparecimento de Domingos Passos
Além das autoridades, o Domingos Passos enfrentava a fúria dos comunistas. O anarquismo estava em franco declínio por conta da tomada dos sindicatos pelos comunistas. Em um artigo publicado no jornal A Manhã, (15) Passos e os anarquistas são chamados de charlatões, reformistas, lacaios do capitalismo, quixotescos e inofensivos pelo comunista Joaquim Mariano.
Por sua vez, as autoridades policiais continuaram a perseguir Passos. Não durou muito tempo e Domingos Passos é novamente preso. No comício de Primeiro de Maio de 1928, na Praça Mauá, organizado pelo comunista Bloco Camponês, a liberdade e o paradeiro de Domingos Passos foram exigidos.
Do Rio de Janeiro, o carpinteiro anarquista foi enviado para São Paulo em 1928 (16). De São Paulo foi enviado, enfermo e faminto, para os sertões do Mato Grosso. (17) Depois foi deportado para o Paraná, onde foi deixado nas matas do Sengés. Passou por Curitiba e Paranaguá. Conseguiu retornar a São Paulo (18). Foi novamente deportado para o Paraná, onde permaneceu. No Paraná, Domingos Passos manteve contato com antigos companheiros até meados de 1929 quando deixou de comunicar-se.
Muitos afirmaram que Passos desistiu da luta para manter-se vivo. Outros falaram que o libertário fora morto pela polícia. Alguns o viram partir num navio para a Espanha. O que importa é que a luta de Domingos Passos permanece viva!
NOTAS
- Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego. Grito Punk (2021), sobre o
punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no
Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO!
- CORREIO PAULISTANO. N.23.204. P.04. 31/03/1928
- RODRIGUES, Edgar. Os Companheiros Vol.02. p.26
- GAZETA DE NOTÍCIAS.N.257. 17/09/1919.
- A VOZ DO POVO. N.215. 14/09/1920.
- O IMPARCIAL. N.175. ANO X. Rio de Janeiro. 03/05/1920.
- A VOZ DO POVO. N. 175. Data: 02/08/1920.
- O COMBATE. 14/09/1921.
- O PAIZ. N. 14234. Data: 10/10/1923
- GAZETA DE NOTÍCIAS. 01/04/1924. N. 78
- O PAIZ. N. 14378. Data: 02/03/1924.
- A NOITE. N. 5479. Data: 21/02/1927
- A MANHÃ. N. 351. P. 7. Data: 09/02/1927;
- GAZETA DE NOTÍCIAS. N. 102. Data: 30/04/1927
- A MANHÃ. N. 424. Data: 05/05/1927;
- A MANHÃ. N. 733. Data: 02/05/1928.
- A MANHÃ. N.980. Data: 15/02/1929.
- DIÁRIO DA NOITE. 10/03/1928. N. 1059. SP