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Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis provavelmente foi o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Seria
imposs�vel retratar todo seu trabalho aqui, mesmo porque, em sua vasta obra, experimentou as mais variadas formas de literatura: Foi cronista, contista, poeta, novelista, romancista, cr�tico, ensa�sta e jornalista.Nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Foi criado no Morro do Livramento pelo pai Francisco Jos� de Assis (oper�rio, mesti�o de negro e portugu�s) e pela madrasta Maria In�s (tamb�m mulata) j� que a m�e, Maria Leopoldina, faleceu muito cedo. Gago, epil�tico, com problemas intestinais e de vis�o, estudou em escola p�blica mas, de fato, foi autodidata pois n�o tinha meios para frequentar cursos regulares e, assim, estudou como p�de. N�o se sabe muito de sua inf�ncia mas, j� em 12 de janeiro de 1855 (com 16 anos incompletos), publicava seu primeiro trabalho liter�rio (o poema "Ela") no peri�dico Marmota Fluminense. No ano seguinte entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de tip�grafo e, da� em diante, sua trajet�ria � bem conhecida. Sua origem humilde e o fato de ser mulato lhe fizeram v�tima de preconceitos (seu casamento com Carolina foi muito combatido). Tentava minimizar sua condi��o adotando trajes conservadores, postura de "lorde ingl�s" e h�bitos burgueses. Sua paix�o pelo xadrez n�o foi ef�mera. De fato, o xadrez fazia parte de sua vida ao ponto de se tornar um bom jogador e, inclusive, ter a oportunidade de jogar contra os melhores jogadores brasileiros de sua �poca. Ficaram famosos os seus embates com Caldas Vianna (o n�mero 1 do Brasil na �poca) e Artur Napole�o. Participava de torneios e frequentava clubes onde praticava com outros aficcionados. Desta forma, n�o � surpresa encontrar refer�ncias ao jogo de xadrez salpicadas em sua imensa obra liter�ria.
Machado de Assis faleceu em 29 de setembro de 1908 quando n�o mais resistia �s ulcera��es na l�ngua, transformadas em c�ncer por causa das mordidas durante as crises de epilepsia. Fonte: ABL, Rio de Janeiro - RJ |
O diagrama ao lado foi publicado na revista "Ilustra��o Brasileira" em 15 de junho de 1877. Trata-se do primeiro problema de xadrez de
autor brasileiro publicado no Brasil. O autor da fa�anha, � claro, foi Machado de Assis (provavelmente empolgado com o segundo lugar no torneio de xadrez do Clube Liter�rio Fluminense que reunia a nata da
aristocracia).O enunciado pedia "Mate em 2 lances" e a solu��o, 1.Bb5! amea�a mate com 2.Df6#. N�o resta outra tentativa de defesa �s negras a n�o ser 1...Rd8 (buscando a casa de fuga c8) mas as brancas d�o mate com 2.Rf7# O diagrama sugere ter sido inspirado em uma partida real e a chave pode surpreender os menos avisados pois o bispo se afasta do rei negro. O mate com movimento de rei � um desfecho elegante. Mande seu coment�rio. |
| "Sobram
apenas quatro pe�es e um distante cavalo escoltando o rei preto. Os
inimigos preparam o xeque: bispo, rainha, cavalo e outros quatro pe�es,
sem falar no rei branco. Diante dessas pe�as restantes no tabuleiro,
vem o desafio: Brancas jogam. Mate em dois lances.
Este foi o primeiro problema enxadr�stico elaborado por um brasileiro, publicado na revista Ilustra��o Brasileira em 15 de junho de 1877. Seu autor: Joaquim Maria Machado de Assis. Tr�s anos depois, a Revista Musical e de Belas-Artes anunciou o primeiro torneio de xadrez disputado no Brasil. Participariam seis dos melhores amadores da Corte. Cada um jogaria quatro partidas com o outro e, no fim, quem obtivesse o maior n�mero de vit�rias seria considerado o vencedor. A pontua��o do xadrez � simples: vit�ria, um ponto, empate, meio ponto. Ap�s as primeiras rodadas do torneio, foi divulgado um resultado parcial. Machado de Assis liderava com seis pontos, seguido de Arthur Napole�o (cinco e meio), Caldas Vianna (quatro e meio), Charles Pradez (quatro), Joaquim Navarro (um) e Vitorino Palhares (um). Mais � frente, o escritor apareceria em terceiro, ultrapassado por Arthur Napole�o e Jo�o Caldas Vianna. Terminar atr�s apenas daqueles dois n�o era nenhuma desonra. Jo�o Caldas Vianna Neto (1862-1931) foi o primeiro grande enxadrista brasileiro, idealizador da Variante Rio de Janeiro na Abertura Ruy Lopez. O maestro Arthur Napole�o (1843-1925), que aos 16 anos enfrentara o campe�o mundial de xadrez Paul-Charles Morphy em partida amistosa realizada no New York Chess Club, lutou incansavelmente pela divulga��o e pelo desenvolvimento do xadrez no Brasil. A cronologia do enxadrista Machado de Assis coincide com a presen�a de Arthur Napole�o na Corte, a partir de 1866. As duas paix�es em comum a m�sica e o xadrez aproximaram o escritor e o maestro. Foi sob a influ�ncia de Napole�o que Machado se iniciou nos segredos do tabuleiro, do qual passou a ser um aficionado, fazendo do xadrez um sedativo espiritual e um salutar instrumento de conviv�ncia social. Sua intensa dedica��o ao jogo nos leva a uma pergunta inevit�vel: o xadrez ajudaria a explicar o g�nio de Machado de Assis? N�o faltam precedentes na literatura para justificar essa hip�tese. O escritor russo-americano Vladimir Nabokov considerava a cria��o de um romance semelhante � composi��o de um problema enxadr�stico. Para o novelista russo Ivan Turgueniev, o xadrez era uma necessidade t�o imperiosa quanto a literatura. Ao longo da Hist�ria, o interesse pelo jogo imortal acompanha muitos dos que abra�am o of�cio das letras. A lista inclui, entre outros, William Shakespeare, Goethe, Lewis Carroll, Charles Dickens, Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling, Herman Melville, George Orwell, Stephan Zweig, Dostoievski, Ibsen, Edgar Allan Poe, Bernard Shaw, Tolstoi, Balzac e Guimar�es Rosa. Gosto que, � claro, n�o se limita aos escritores. O xadrez est� nas mais nobres biografias, do astr�nomo Galileu Galilei aos fil�sofos Spinoza e Diderot, do qu�mico Mendeleiev, inventor da tabela peri�dica, aos compositores Beethoven e Chopin. Se Miguel de Cervantes percebia o xadrez como algo semelhante � vida, Machado de Assis, no conto Antes que cases (1875), discorda do escritor espanhol: A vida n�o � um jogo de xadrez. Mais tarde, em Iai� Garcia (1878), parece voltar atr�s quando atribui � personagem principal duas virtudes vista pronta e paci�ncia beneditina , e assim as descreve: qualidades preciosas na vida, que tamb�m � um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas. N�o chega a ser surpresa constatar que o xadrez seduziu Machado de Assis, um autor que centrou seu interesse na sondagem psicol�gica e, como poucos, buscou compreender os mecanismos que comandam as a��es humanas. Fossem elas de natureza espiritual ou decorrentes da influ�ncia que o meio social exerce sobre cada indiv�duo, tudo era temperado com profunda reflex�o. A discri��o e a obstina��o de Machado eram caracter�sticas de um grande enxadrista. Quanto mais sua obra se afirma, mais ele se torna um homem retra�do, calado, metido consigo. Em 1880, �poca de sua mais intensa atividade enxadr�stica, ele publica, originalmente como folhetim, o romance que para muitos � o divisor de �guas em sua carreira: Mem�rias P�stumas de Br�s Cubas. Em 1904, no romance Esa� e Jac�, o autor explica seu m�todo de cria��o, comparando a narrativa a um jogo de xadrez: Por outro lado, h� proveito em irem as pessoas da minha hist�ria colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, esp�cie de troca de servi�os, entre o enxadrista e os seus trebelhos. Trebelho � como se chama qualquer pe�a do jogo de xadrez. A troca de servi�os entre o enxadrista e suas pe�as volta e meia fazia aparecer, expl�cito, o jogo que seduzia o autor mencionado tamb�m em contos (Quest�o de vaidade, Ast�cias de marido, Hist�ria de uma l�grima, Rui de Le�o, Qual dos dois, Quem boa cama faz), em diversas cr�nicas e na novela A Cartomante (1884). Machado de Assis era problemista desde a d�cada de 1870. Publicou v�rios de seus desafios e enigmas em revistas, al�m de manter rica correspond�ncia com as se��es especializadas dos peri�dicos da �poca e ocupar posi��o destacada nos c�rculos enxadr�sticos do tempo do Imp�rio. Em 1868, j� freq�entava o Club Fluminense para dedicar-se ao jogo. Anos mais tarde, passou a praticar seu querido xadrez no Gr�mio de Xadrez, que funcionava em cima do Club Polit�cnico, na Rua da Constitui��o, 47. O interesse se prolongou por anos a fio, como revela sua correspond�ncia com o embaixador Joaquim Nabuco. Em 1883, Nabuco lhe enviou de Londres recortes de jornais com descri��es de partidas, atendendo a um pedido do escritor, que assim agradeceu: Antes de falar do livro, agrade�o muito suas lembran�as de amizade, que de quando em quando recebo. A �ltima, um retalho de jornal, acerca da partida de xadrez, foi-me mandada a casa pelo Hil�rio. Em v�rios n�meros da revista Ilustra��o Brasileira e da Revista Musical e de Belas-Artes, Machado � citado como solucionista de problemas de xadrez. Arthur Napole�o, que redigiu se��es especializadas em algumas revistas e no Jornal do Commercio, publicou, em 1898, Caissana Brasileira, uma cole��o de 500 problemas enxadr�sticos seus e de outros autores. Entre eles, aquele problema publicado por Machado de Assis em junho de 1877. A respeito desse enigma machadiano, o maestro registrou o seguinte coment�rio: Como o poeta franc�s Alfred de Musset, Machado de Assis comp�s um bonito 2 lances. Alfred de Musset (1810-1857), o Poeta Rom�ntico do Xadrez, foi uma das refer�ncias liter�rias de Machado, e parece ter sido tamb�m uma de suas refer�ncias como enxadrista. Em 1848, Musset tornou-se membro ass�duo do famoso Caf� de la R�gence, em Paris. Centro mundial do xadrez, o Caf� era o lugar preferido da intelectualidade parisiense. O xadrez do s�culo XIX inspirava-se no sentimento rom�ntico: os jogos eram francos e suicidas. Conta-se que, no momento em que irrompeu a Revolu��o de 1848, em 24 de fevereiro, Musset estava no Caf� de la R�gence, no meio de uma partida. Os tiros come�avam a ser ouvidos das ruas, mas foram ignorados pelo poeta, que continuou contemplando o tabuleiro. Anos mais tarde, provavelmente inspirado por essa hist�ria a respeito de Musset, Machado escreveu em cr�nica de 1� de junho de 1877 para a Ilustra��o Brasileira: Conta-se que no Caf� da Reg�ncia,
em Paris, onde se joga o xadrez, dois advers�rios tinham encetado uma
partida, quando entrou um fregu�s �s 9 horas e meia e falou a um dos
jogadores: Al�m dessa incr�vel capacidade de concentra��o desenvolvida por seus praticantes, o xadrez tem a fama de estimular outros talentos humanos. Entre eles, o da memoriza��o visual. Um pitoresco relato mostra como este dom assumiu em Machado um car�ter todo especial, invadindo o terreno da fic��o. Quem conta � o escritor Medeiros e Albuquerque (1867-1934): Certo dia, Machado me chamou na rua para contar-me este fato: disse-me que, na v�spera, � tarde, quando voltava para casa, vira no Largo da Carioca um sujeito que ele conhecia. Conhecia; mas n�o sabia de onde. Rodou em torno do sujeito, fazendo um grande esfor�o de mem�ria para lembrar-se de onde o vira, at� que, de s�bito, achou: Ah! � o Raposo do Medeiros! Eu tinha publicado, dias antes, na Revista Brasileira, um conto As cal�as do Raposo. Lendo-o, Machado de Assis evocara um certo tipo para o meu Raposo. Ou seja: Machado era capaz de evocar um personagem com tanta nitidez que julgava encontr�-lo na vida real! Para a mente de um romancista-enxadrista, a associa��o do jogo com a literatura soa natural. A leitura de um livro � apenas uma das possibilidades que o arranjo de suas jogadas, ou hist�rias, pode conter. Esse � o princ�pio da combinat�ria. Esse � o princ�pio do jogo que Machado prop�e aos seus leitores. Enquanto um livro de Machado de Assis for exumado de uma estante e lido, � porque a partida continua. Estamos em xeque. O pr�ximo movimento de Machado de Assis � um enigma. A ressaca no olhar inesgot�vel de Capitu � apenas um deles. Pistas essenciais para o estudo da obra do grande escritor brasileiro poder�o ser descobertas nos labirintos do tabuleiro, no cont�nuo movimento de suas pe�as? Como ele pr�prio nos aconselha em Iai� Garcia, ser� preciso manter a vista pronta e a paci�ncia beneditina, pois aqui (e assim � a pr�pria vida) jogamos xadrez". Fonte: Cl�udio de Souza Soares � enxadrista, analista de sistemas e autor do artigo "Machado de Assis, o enxadrista" (Revista Brasileira, N� 55, Academia Brasileira de Letras, 2008). |
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