Vínculo traumático
Vínculo traumático (em inglês: traumatic bonding ou trauma bonding) é o processo pelo qual uma vítima de abuso desenvolve uma forte ligação emocional com o perpetrador do abuso.[1] Os dois principais fatores que contribuem para o estabelecimento de um vínculo traumático são um desequilíbrio de poder na relação e o reforço intermitente de recompensas e punições.[2]
O conceito foi descrito pelos psicólogos Donald Dutton e Susan Painter na década de 1980, no contexto de violência doméstica e relações abusivas.[3]
Mecanismo
[editar | editar código]O vínculo traumático pode ocorrer em relações amorosas abusivas, amizades, relações entre pais e filhos, relações incestuosas, cultos, situações de cativeiro, tráfico sexual e situações de coerção.[4]
O primeiro episódio de abuso costuma ser percebido como uma anomalia no início de uma relação aparentemente saudável. A expressão de afeto e cuidado por parte do abusador após o episódio apazigua a vítima e reforça a crença de que o abuso não se repetirá. Contudo, episódios recorrentes geram uma mudança cognitiva na vítima, que passa a acreditar que não tem poder para impedir o abuso. Quando essa percepção se consolida, o vínculo emocional traumático já está forte.[3]
Desequilíbrio de poder
[editar | editar código]Para que um vínculo traumático persista, deve existir uma diferença de poder entre o abusador e a vítima, de modo que o abusador esteja em posição de autoridade. A desigualdade de poder pode levar a vítima a internalizar a percepção que o abusador tem dela, resultando em autoculpabilização em situações de violência. Uma autoavaliação negativa maximiza a dependência emocional do abusador.[1]
Reforço intermitente
[editar | editar código]O reforço intermitente de recompensas e punições é essencial para o estabelecimento e a manutenção do vínculo traumático. O abusador alterna períodos de maus-tratos com comportamentos positivos, como demonstrações de afeto, presentes e promessas de mudança. Essa alternância imprevisível torna as recompensas mais desejadas, conforme explicado pela teoria da aprendizagem, produzindo padrões comportamentais difíceis de extinguir.[1]
Contextos
[editar | editar código]Relações abusivas
[editar | editar código]Em relações abusivas, o vínculo traumático é mais forte em pessoas que cresceram em lares abusivos e que consideram o abuso uma parte normal dos relacionamentos. Entre mulheres agredidas, observa-se um processo em três fases: aumento gradual da tensão, explosão de violência e, em seguida, uma fase de reconciliação com expressões de amor e afeto por parte do agressor.[1]
Relações entre pais e filhos
[editar | editar código]Crianças com cuidadores negligentes ou abusivos podem desenvolver apegos inseguros disfuncionais. A inconsistência entre recompensa e punição pode levar a criança a focar apenas nos momentos de afeto, desenvolvendo uma visão distorcidamente positiva do cuidador e formando um vínculo traumático no qual o senso de identidade da criança deriva da dependência emocional da figura de autoridade.[5]
Tráfico de pessoas
[editar | editar código]Vínculos traumáticos são extremamente comuns em situações de tráfico de pessoas e exploração sexual comercial de crianças. O isolamento e as ameaças à sobrevivência forçam a vítima a depender quase inteiramente do abusador, normalizando a violência emocional e desenvolvendo uma percepção distorcida de segurança e afeto.[2]
Consequências
[editar | editar código]O vínculo traumático pode levar a vítima a permanecer em relações abusivas, desenvolver uma autoestima negativa, perpetuar ciclos transgeracionais de abuso e apresentar desfechos adversos de saúde mental, incluindo maior probabilidade de depressão e transtorno bipolar.[6]
Do ponto de vista neurofisiológico, a vítima de um vínculo traumático mantém-se em estado perpétuo de resposta de luta ou fuga, com níveis elevados de cortisol, o que pode comprometer o sistema imunitário, a saúde dos órgãos, o humor e os níveis de energia a longo prazo.[2]
Diferença em relação à síndrome de Estocolmo
[editar | editar código]Embora frequentemente confundidos, o vínculo traumático e a síndrome de Estocolmo são conceitos distintos. Na síndrome de Estocolmo, a conexão emocional é recíproca, ou seja, o abusador também aparenta desenvolver sentimentos positivos em relação à vítima, enquanto no vínculo traumático a ligação emocional é unilateral, partindo da vítima em direção ao abusador.[2]
Ver também
[editar | editar código]Referências
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 Dutton, Donald G.; Painter, Susan (1993). «Emotional attachments in abusive relationships: a test of traumatic bonding theory». Violence and Victims. 8 (2): 105–120. PMID 8193053. doi:10.1891/0886-6708.8.2.105
- 1 2 3 4 Sanchez, Rina V.; Speck, Patricia M.; Patrician, Patricia A. (2019). «A Concept Analysis of Trauma Coercive Bonding in the Commercial Sexual Exploitation of Children». Journal of Pediatric Nursing. 46: 48–54. PMID 30852255. doi:10.1016/j.pedn.2019.02.030
- 1 2 Dutton, Donald G.; Painter, Susan L. (1981). «Traumatic Bonding: The Development of Emotional Attachments in Battered Women and Other Relationships of Intermittent Abuse». Victimology. 6 (1–4): 139–155
- ↑ George, Vanessa (2015). Traumatic Bonding and Intimate Partner Violence (Dissertação de mestrado). Victoria University of Wellington
- ↑ Dekel, Bianca; Abrahams, Naeemah; Andipatin, Michelle (2018). «Exploring adverse parent-child relationships from the perspective of convicted child murderers: A South African qualitative study». PLOS ONE. 13 (5): e0196772. doi:10.1371/journal.pone.0196772
- ↑ Marshall, Michelle; Shannon, Ciaran; Meenagh, Catherine; Mc Corry, Noleen; Mulholland, Ciaran (2018). «The association between childhood trauma, parental bonding and depressive symptoms and interpersonal functioning in depression and bipolar disorder». Irish Journal of Psychological Medicine. 35 (1): 23–32. doi:10.1017/ipm.2016.43
